Erro do El Pais não é complô da direita, mas incerteza de valores

Talvez proporcionando a maior “barriga” do jornalismo impresso no século XXI, o El Pais estampou em sua capa uma foto do presidente venezuelano Hugo Chávez entubado numa UTI. A foto era falsa. O jornal espanhol passou um imenso vexame internacional. O problema não foi o complô de direita apontado pela Venezuela e por observadores de esquerda que combina demagogia com negação. O El Pais, do alto de sua excelência, simplesmente esqueceu alguns valores jornalísticos básicos e foi punido, mas diga-se de passagem, não é o único que comete esses erros. O jornalismo anabolizado pela era digital precisa saber lidar com os próprios limites.

Primeiro, uma observação sobre o “complô de direita”. O chavismo surgiu como um poderoso movimento político em sua chegada ao poder para depois transformar-se um status quo que busca sua perpetuação. Ainda que tenha proporcionado ganhos sociais concretos, submete a Venezuela a um regime com uma democracia distorcida, com repressão da liberdade de imprensa e uma retórica demagógica, ideologizada e populista, um trend que tem adeptos em outros países sulamericanos.

Contudo, o comprometimento que Chávez possa estar proporcionando  Venezuela não entra na conta do erro do El Pais. Se o Guardian, o Washington Post ou o NYT conseguissem uma foto de Chávez em coma quando a posição oficial venezuelana era de silêncio, certamente teriam considerado a publicação. Num momento em que o destino político da Venezuela depende diretamente da saúde e a morte iminente de Chávez.  É questionável se a publicação de uma pessoa em seu suposto leito de morte, tirada à sua revelia, vale publicação. Entre os erros do jornal, o debate sobre o direito de privacidade de Chávez teria sido o menor, pois o interesse público se sobreporia aos direitos individuais do político, especialmente porque o jornal é impresso e entregue em quase toda a América hispanófona.

A falha grave do El Pais, contudo, foi filha de uma série de erros, que vão direto ao coração da natureza da cobertura digital. Desde a oferta da fotografia por uma agência menor, a investigação sobre a procedência da imagem sempre esteve em segundo plano a uma pergunta: será que a foto é verdadeira? Toda a narrativa feita pelo jornal do minuto a minuto que levou à publicação, numa espécie de mea culpa inquisicional mostra uma discussão focada na tentativa de se comprovar a origem da imagem através de pareceres técnicos em vez do velho, óbvio e lento método de ver quem tirou a foto.

O caso do El Pais é sintomático de um jornalismo que está passando por uma metamorfose em seu DNA. Prioridades que se aplicavam ao jornalismo tradicional  – a busca do “furo” mais do que qualquer outra – não cabem mais. No ciclo de 24 horas dos jornais, o “mais rápido possível” permitia ao trabalho do jornalista pelo menos um dia para fazer a dura, difícil e às vezes entediante tarefa de apuração e checagem. Hoje o “mais rápido possível” é já. Os meios de comunicação que colocam o “temos de dar primeiro” como a vaca sagrada invariavelmente comprometem seu resultado.

O grave – mais grave do que qualquer ataque político ao regime chavista – é a constatação de que os valores básicos do jornalismo estão sendo “adaptados” para manter o “temos de dar primeiro” à frente dos outros. Cada grande breaking news é uma grande aposta que, quando a publicação perde, simplesmente desconversa, como o site Business Insider e sua cobertura frenético-sensacionalista que disfarça tudo de opinião para poder montar sua defesa caso a “previsão” esteja errada.

A desnaturação dos princípios do jornalismo não se deve só à tecnologia. A teimosia da maioria dos jornalistas experientes e dos acadêmicos em abraçar o switch tecnológico da industria, aliada às constantes perdas salariais dos jornalistas nas últimas duas décadas deixou as redações sob o comando de profissionais muito menos experientes e com muito menos bagagem para tomar as decisões em momentos críticos – exatamente como a que fez o El Pais ir adiante com uma foto que se podia encontrar em um vídeo na Internet. O que faz pensar é imaginar como não acontecem desastres jornalísticos como o protagonizado pelo jornal espanhol, uma vez que o ambiente em praticamente todas as publicações do mundo sofre do mesmo mal.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.