Jornalismo e TI são as funções das publicações do futuro

Um dia, o papel do jornalista foi informar e o do jornal, publicar essa informação. Provavelmente os primeiros periódicos a rodar sob as então recentes prensas idealizadas por Gutenberg. Pouco mais de quatro séculos depois , o jornalismo está mergulhado em sua maior reformulação estrutural e essa distinção das funções  de ambos ficou borrada. Publicações e jornalistas foram submetidos a uma mutação estrutural que vai deixar pelo caminho quem não quiser se adequar.

Não há nenhuma iconoclastia na observação. Jornalistas ainda têm de informar e publicações ainda aumentam o alcance desse conteúdo, mas os dois verbos ganharam dimensões inéditas há até bem pouco tempo. O uso de ferramentas de mídias sociais e outras ferramentas digitais, que conseguiram acesso quase instantâneo a quase toda parte. Jornais e revistas hoje conseguem colocar feeds de imagem ao vivo em seus sites ou apps com um custo quase irrisório. O aporte de possibilidades trouxe um preço para profissionais e meios.

All rights by http://www.flickr.com/photos/mariusb/Entender o fato e reportá-lo passou a ser somente uma parte da incumbência do profissional, que agora tem que reagir a ele em tempo real e reagir à reação da sua audiência à sua reação. Além disso, o aumento exponencial da quantidade de fontes obriga o narrador a deixar seus motivos e preconceitos bem mais claros, porque o público agora sabe de onde sopram os ventos. A relação sem dúvida ficou mais problemática e áspera e totalmente incontrolável, dependendo da quantidade de interlocutores.

O papel das publicações ficou ainda mais complexo. A relação clara de fornecedor e consumidor foi apagada para sempre. O maior problema que as empresas encontram hoje é o de recuperar as receitas decrescentes, pois a tarefa quadricentenária de informar por um preço ganhou competidores – milhares, às vezes milhões deles – que cobram pouco ou nada em termos diretos. Mas no longo prazo, a dificuldade com a qual as publicações terão de lidar é a de conseguir ter algum controle sobre a ingerência das pessoas que eram conhecidas como audiência sobre o produto que elas produziam e vendiam sozinhas. Essa é a mudança provavelmente mais difícil entre as que as empresas terão de enfrentar, porque, além da mudança cultural (que muito raramente não é geracional) anteriormente se antes elas serviam a si próprias e a sua necessidade de otimizar o lucro, agora, precisam lidar com uma série de outros protagonistas.

Sob esse aspecto, publicações de toda sorte podem se adiantar aos acontecimentos para começar a desempenhar um novo papel, o de criar ferramentas para disponibilizar à audiência que consuma grandes blocos de informação, como por exemplo faz o ProPublica, nos Estados Unidos, que num desses projetos, disponibilizou aos leitores/pesquisadores todos os arquivos de gastos da campanha eleitoral americana para escrutínio. O ProPublica terá acesso a uma quantidade gigantesca de informação apurada pela própria audiência que a consumirá no final. O excelente Matthew Ingram observou algumas das lições levantadas da lição do Free The Files, como arrebanhar uma legião de voluntários e “gamificar” os processos, transformando-os em tarefas de resultados ranqueável, para estimular um estímulo através da concorrência.

A função hoje cumprida pelo ProPublica tem poucos aderentes além do Guardian, mas será a regra de meios de comunicação no longo prazo. Jornais e revistas têm de agregar as audiências ao seu processo produtivo criando ferramentas inovadoras e inteligentes de mastigar grandes, imensas quantidades de informação pública mas não ordenada. Numa quantidade de tempo grande o suficiente, poucas empresas irão continuar oferecendo um conteúdo de excelência feitos numa redoma jornalística, sendo que nenhuma delas será uma publicação de massa operando numa sociedade democrática. No longo prazo, publicações e meios de comunicação em geral tendem a organizar grandes comunidades, numa espécie de colméia de informação, onde um longo, maciço e minucioso trabalho passa pelas mãos de diversos indivíduos até originar o produto final. Exatamente por isso empresas de tecnologia parecem ter passado em vantagem em tão pouco tempo e somente as empresas jornalísticas investindo nisso dão a sensação de conseguir manter o passo.

Hoje aventar essa possibilidade ainda soa um pouco digna de ficção científica porque a mídia tradicional ainda está no centro das atividades na nossa sociedade e como disse McLuhan, nenhum meio suplanta o seguinte com algo completamente novo, mas se mimetiza a partir de “originais” que são o próprio meio suplantado (assim como o rádio metabolizou o jornal e como a TV metabolizou o rádio). Mas olhando a velocidade dos acontecimentos nos últimos cinco ou dez anos, é ainda menos realista imaginar que a velocidade das mudanças vá se reduzir.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.