Explosão digital móvel depende de inovação tecnológica

2013 será o ano dos dispositivos móveis. A essa altura, você deve estar se perguntando se não havia ouvido isso no ano passado e no anterior. Sim, ouviu. Há quase uma década que, em uníssono se diz que o ano seguinte é o ano do mobile, mas o caminho do El Dorado eletrônico ainda depende de mudanças em vetores fundamentais e conectados, cuja evolução é diretamente ligada à capacidade de inovação tecnológica. 

Um detalhe inicial: note que não foi em 2012 que o crescimento do tráfego nos smartphones e tablets dispararam. Entre 2009 e 2011, ele já tinha triplicado, e no ano passado, cresceu mais de 27%, e as previsões de receita de publicidade em mobile em 2013 são de quase US$12 bilhões (a Cisco prevê que o tráfego em móveis deve crescer 18 vezes nos próximos cinco anos). A migração do tráfego, contudo, ainda não se converte em receita e só aumenta o prêmio no final do arco-íris e amplia a pressão num mercado que tem dificuldade até mesmo em compensar as perdas com a revolução digital. Mobile, hoje, ainda significa potencial e não capital e isso não muda antes de algumas coisas se alterarem – pelo menos nos serviços que têm sua receita ligada à publicidade.

Money in the mobile

A primeira dessas mudanças necessárias é no formato e eficiência da publicidade. Nem bem a indústria começou a se acostumar com os formatos tradicionais na web, já terá de reaprender a impregnar as marcas através de telas pequenas e com altíssima rotatividade. Cada usuário vê menos de duas impressões no celular por visita, em média, e essa taxa de evasão maior no celular do que nos desktops (“bounce rate“), entre outras coisas, inibe o despertar desse mercado. O modelo dos trinta segundos televisivos como ideal de convencimento ainda está no imaginário de publicitários e anunciantes. O digital não faz para as marcas a mesma concessão temporal das mídias tradicionais e esse é um dogma dificil de mudar.

A segunda alteração necessária e fundamental está nos periféricos dos aparelhos digitais, porque provavelmente é ela que vai viabilizar a transição anterior. Desde o início da eletrônica em si que a máxima é fazer aparelhos cada vez menores. Isso durou até o surgimento do iPod Shuffle, da AppleiPod Shuffle, que mesmo mais barato, não teve a penetração que a empresa desejava. O usuário deixou claro que topa usar aparelhos um pouco maiores em troca de displays mais nítidos. A combinação entre telas que permitam maior visualização das marcas dentro de um contexto é outra trava que as receitas potenciais dos móveis ainda tem. A marca não precisa somente ser exibida – ela precisa conviver num contexto criado pela publicação (seja ela social ou não) para que o efeito publicitário seja sentido. Até lá, formatos obtusos como os que tentam obrigar o leitor, por exemplo, a esperar antes de exibir o conteúdo, continuarão campeando pelo mercado. O “tentam” é por conta do fato que o usuário normalmente prefere ir para outro lugar em vez de perder tempo olhando para o logo de uma empresa teimosa.

O terceiro ponto diz respeito a patentes. Com os maiores players da indústria rangendo os dentes um para o outro e sacando seus portfólios de patentes em brigas eternas na justiça, a inovação tecnológica desacelera – e sem ela, as duas mudanças anteriores ficam improváveis. Não é acaso que depois do boom do final da década passada em desenvolvimento de produtos para o consumidor final, as empresas agora estão mais em passo de cautela lançando equipamentos com atualizações pouco mais que cosméticas (o Siri da Apple é uma das exceções). Como a lei de patentes americana praticamente rege o mundo do desenvolvimento de tecnologia, enquanto os legisladores americanos permitirem que os trolls de patentes movam-se com desenvoltura, é difícil pensar em novos iPods, iPads e Spotify’s. E é difícil também imaginar novas mudanças de paradigmas tecnológicos necessárias para alavancar o potencial de receita que existe no território dos dispositivos móveis. Uma nova corrida do ouro está sendo postergada pela dificuldade e risco que as empresas têm para inovar.

O ano de 2012 foi marcante para a tecnologia de dispositivos móveis, como fala essa matéria do MIT Review, mas o maior impacto do ano foi em tornar ainda maiores os prêmios para quem destravar a grana do setor que está atrelada à capacidade de se explorar a publicidade e uso de serviços ainda alienígenas ao uso no celular. Há certamente uma questão de comportamento do usuário, mas ela é fortemente determinada pelos obstáculos tecnológicos (como, por exemplo, a visualização em telas pequenas), que precisam desesperadamente de soluções.

Nem mesmo os “Quatro Cavaleiros” Google, Apple, Facebook e Amazon exploram esse mercado adequadamente. Ainda que algumas empresas estejam faturando alto nessa praia, ainda não há ninguém nadando de braçada como o Google fez com a busca ou como o Facebook fez com mídias sociais. O setor bancário tem boas chances de ser a primeira indústria a conseguir morder uma fatia dessa receita, lançando sistemas de pagamento P2P, por exemplo.  Até que alguém apresente novas tecnologias que permitam a adoção completa do mundo móvel, ele segue como o El Dorado inatingível. Atacar os obstáculos á inovação é o caminho mais rápido para encontrar seu caminho.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.