Ensino busca modelo de negócios para se reinventar

O surgimento de um ensino privado de baixa qualidade que visa mais o fornecimento de um título de curso superior do que a formação de profissionais não é uma exclusividade brasileira. A nova indústria campeia também nos Estados Unidos, “universidades” que dão diplomas nas mais variadas especialidades mediante pagamento sem esforço do aluno são freqüentes a ponto do FBI investigar o caso (como registra esse excelente podcast do blog Freakonomics). É uma questão econômica. Há uma demanda por ensino em uma parcela da população que não pode pagar os valores de boas faculdades (nos EUA, o valor médio de um curso superior é de US$100 mil) e cursos “mais em conta” se propõem a suprir a demanda, mas com um produto de péssima qualidade. As ferramentas digitais abriram um oceano de possibilidades, que já estão sendo aproveitadas por startups como o Coursera, a Udemy e o EdX. Mas ainda há um senão: para dar o passo final, ou seja, conseguir reconhecimento das instituições educacionais de países com bom nível educacional, o ensino online busca um modelo de negócio que funcione. A formatação desse modelo vai alavancar uma distribuição de conhecimento que os feudos educacionais jamais sonharam. E não está tão longe de acontecer.

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O meio acadêmico compartilha com as mídias tradicionais o mesmo pavor pela transformação digital. Num artigo publicado na versão digital do Guardian, dois acadêmicos advertem que o ensino online pode levar à morte da educação nas ciências humanas, profecia que também se faz para o futuro do jornalismo. Membros privilegiados em instituições estabelecidas sempre predisseram o final dos tempos quando viam seus domínios ameaçados e até agora, o mundo não acabou. Por isso, é pertinente imaginar que a entrada da ferramenta digital no mundo da educação não tenha o impacto de uma segunda idade média na educação nem venha a acabar com a ignorância do planeta.

Já acontece, especialmente nos EUA, uma espécie de aliança contrária ao ensino online ou MOOCs (“Massive Open Online Course”, ou “Curso Online Aberto em Massa”). Entidades reguladoras de ensino tentam fazer o possível para desacreditar os cursos que são, na maioria dos casos (ao menos nas instituições citadas acima) dados por sumidades de gigantes da pesquisa como o MIT, Stanford e Yale). Por exemplo, se argumenta que o percentual de alunos que termina os cursos é de cerca de 20%, o que seria muito baixo, mas nas instituições “físicas” os mesmos cursos chegam ao fim com 15% ou menos dos alunos.

O fato é que o ensino à distância massificado ainda busca modelos de negócio que possam viabilizar a iniciativa empresarialmente. Versões premium com ferramentas extras (mas não fundamentais), ofertas de validação que equiparem os títulos àqueles conseguidos nas faculdades tradicionais e sistemas de financiamento alternativo sã0 algumas das modalidades.

Se fôssemos tomar por base a qualidade da pesquisa e do ensino em jornalismo no Brasil (só porque este é um blog que trata mais de comunicação do que outras ciências), os MOOCs já seriam amplamente uma alternativa melhor do que 90% dos cursos. Sem fazer nenhuma polêmica, a maioria esmagadora das instituições forma profissionais que passam pouco acima do semianalfabetismo. Parte da culpa é do ensino básico, cujo nível quintomundista não foi atacado seja pelo governo ou pela oposição quando era governo, porque educação não é um assunto que entra na pauta política. Cursos de qualidade envolvem capacitação do corpo docente, demanda muito dos alunos e custa dinheiro aos cofres públicos, sacrifícios que na prática, nenhuma das três partes aceita fazer.

Outra parte da culpa é da indústria do ensino privado, que cria estábulos de alunos, com professores malpreparados e mal pagos, orientados para aprovar todo mundo ou alunos que entrarão no ano seguinte podem ficar sem vagas. Qualquer curso oferecido pela Coursera ou pelo EdX é melhor do que todas as opções oferecidas por qualquer faculdade brasileira, excetuando-se meia dúzia delas. E ouvindo uma palestra como a de Daphne Koller no TED, a oferta de MOOCs torna-se ainda mais entusiasmante num planeta onde a maioria esmagadora da população não pode ter acesso a educação de nível nenhum.

É difícil imaginar que as faculdades tradicionais acabem, embora o ensino custeado pelo Estado certamente precise urgentemente ser auditado para prestar contas à sociedade. Universidades públicas tendem a se transformar em capitanias hereditárias cujo controle político não tem absolutamente nada a ver com competência (na verdade, a competência é costumeiramente tratada  como uma inimiga), especialmente nas ciências humanas, onde a atribuição de valor não tem os critérios de avaliação tão precisos quanto nas ciência exatas ou biológicas.

Ainda há um caminho longo a se trilhar para adaptar as ferramentas digitais para se otimizar os resultados possíveis no ensino online, mas há três fatores que jogam a favor. Primeiro, o digital fornece ferramentas para se escalar a o ensino para uma quantidade impensável que jamais o ensino tradicional poderá sonhar; segundo, o ensino tradicional não só está ficando cada vez mais caro, mas também está despencando em qualidade conforme as instituições tentam criar “ofertas” mais baratas para conquistar novos públicos e no processo, acabam se tornando simples emissoras de diplomas para analfabetos ou quase. O terceiro, e mais importante, é a possibilidade que as ferramentas digitais dão de se descentralizar o processo e contar com uma oferta de mão de obra virtualmente infinita através do crowdsourcing (um professor de Yale pode, por exemplo, lecionar para turmas 2000 vezes maiores do que faria nas instalações das faculdades).

A questão da pesquisa ainda não foi atacada pelo digital, mas precisa ser, urgentemente. Os maiores centros de pesquisa do mundo funcionam bem, mas vastas quantidades de investimento público em pesquisa vão para o ralo através de uma burocracia corporativa que não só produz pesquisa de qualidade duvidosa como desestimula não-membros da comunidade acadêmica a colaborar, virtualmente criando torres de marfim onde a pesquisa é um fim em si mesmo e não reverbera de forma alguma na sociedade, que deveria ser a destinatária principal de suas conquistas.

Como tudo no mundo capitalista, a estruturação de um novo modelo de ensino como os MOOCs depende do desenvolvimento de um modelo de negócios viável que ainda não existe, mas deve ficar claro em bem pouco tempo. Os efeitos dessa outra revolução tendem a ser sentidos rapidamente nas sociedades que têm um nível de alfabetização aceitável e liberdade suficiente para tanto, mas não sem esforço: acadêmicos ciumentos, empresários de lojas de diplomas e políticos que não apreciem o aumento intelectual de seus eleitores certamente serão um obstáculo. Com alguma sorte, transponível.

PS: a imagem deste post foi retirada de http://www.rizomatica.net/, segundo a licença pertinente da Creative Commons.

Cassiano Gobbet

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