Divulgar informações públicas pode gerar polêmica?

Imagine se fosse possível disponibilizar publicamente a informação de onde estão todas as armas registradas num determinado país, como por exemplo, os Estados Unidos. Assim, seria possível a você, checar quais são os seus vizinhos que têm armas. Uma ideia do gênero é claramente poliemica e de alto impacto, mas, depois da tragédia de Newtown, todos os tipos de controle de armas nos EUA estãos endo discutidos. O mencionado anteriormente, por exemplo, já virou realidade numa publicação online local de algumas cidades no Estado de Nova York.Screen Shot 2013-01-15 at 18.39.10A medida não é nem óbvia nem unânime. Uma série de problemas surge da medida, indo de esferas que vão da segurança pessoal até a privacidade. Entretanto, tragédias da magnitude da ocorrida em Sandy Hook, freqüentemente abrem espaço para decisões extremas e, nos Estados Unidos, poucas causas geram mais discussão do que o controle de armas, direito previsto na constituição.

Obviamente a discussão está dando pano para manga. Alguns leitores dizem que o mapa torna alvos fáceis as casas que têm ou que não têm armas; outros acham a medida saudável porque você quer saber se seu vizinho com cara de louco tem uma escopeta automática em casa. Discussões sobre armas à parte, a questão abordada aqui é a seguinte: a publicação tinha direito de organizar de forma tão visual e simples tal informação, sendo que essa informação já era de domínio público? Em tese, quando alguém consegue um porte de arma nos EUA está automaticamente concedendo a liberdade de que tal fato (a concessão do porte seja publicamente divulgada), mas até antes do massacre na escola fundamental, era pouco provável que alguma publicação levasse esse direito às últimas conseqüências. A decisão de manter tais dados em domínio público certamente não levava em conta o Google Maps e no máximo, deveria imaginar num mapa empoeirado na parede de  alguma autarquia pública, e que seria visualizado por algumas dezenas de pessoas por ano.

O episódio ilustra um fenômeno que permeia praticamente toda a atividade da mídia hoje: é a adoção de práticas que, apesar de legais, ainda não foram nem debatidas nem reguladas (seja pela lei ou pela prática da profissão). A polêmica sobre decisão de publicar onde estão todas as armas do condado tem a mesma natureza da discussão de se permitir ou não que sejam publicadas em veículos de grande audiência fotografias íntimas de uma celebridade que tenham sido acidentalmente expostas. É impossível julgar e decidir com clareza situações que não existiam antes da revolução digital e com leis que foram feitas para um outro contexto.

No mapa criado pelo lohud.com, que pertence à Gannett Media, um grande grupo de mídia nos EUA, o choque vai bem além da questão do controle de armas, que por si só é imensa. Para jornalistas e donos de publicações, começa a se fazer necessário rediscutir o controle da informação para que não haja excessos nem censuras, porque em algum momento, problemas derivados dessa inadequação vão começar a surgir e depois de um evento agudo como o de Newtown, discussões razoáveis são mais difíceis de se conseguir.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.