Quando a herança do impresso é um estorvo

A entrada da produção de conteúdo jornalístico no mundo digital não é um passeio, não é voluntária e não é necessariamente vantajosa. Meios de comunicação que estiveram por anos e décadas (e em alguns casos, séculos) confortavelmente apoiados em suas rotativas, vêem-se obrigados a tomar decisões que forçam a saída dessa zona de conforto. A tensão criada pela resistência a essa saída e a pressão em direção a ela é a responsável pelas situações de desarranjo que hoje ainda são maioria. Que situações? Aquelas que levam o leitor a se perguntar porque aquele meio decide tomar determinadas decisões, quando outros caminhos são mais óbvios. Cada vez mais, a insistência em busca de um conforto moribundo aumenta a chance de desaparecimento de grandes marcas.

Spin (magazine)

Vamos falar de contexto. Confrontados por dilemas, títulos de revistas mundialmente famosas estão vendo as operações impressas serem levadas pela enxurrada. Na semana anterior ao Natal de 2012, duas grandes marcas do jornalismo mundial, a musical Spin e a noticiosa Newsweek encerraram suas edições impressas (a Newsweek até com um toque de humor digital, usando uma hashtag referente à última edição).

Pano rápido e voltamos ao Brasil. Duas revistas brasileiras (que me darei a licença poética de não mencionar pelo nome) me chamaram a atenção na mesma semana. A primeira delas, dedicada a um jornalismo mais literário, e a segunda, abordando o esporte e suas áreas adjacentes.

No caso da primeira, o estranhamento se dá porque ao tentar fazer uma assinatura do título jornalístico, descobri que a mesma só oferecia na versão impressa; o relevante em relação à publicação de esporte é que, igualmente, não tinha uma versão digital, mesmo contando com uma operação digital de porte. Ambos títulos são voltados para a parcela da audiência com maior poder aquisitivo e que, especialmente no caso da publicação jornalística, tem grande identidade com tablets, smartphones e outros aparelhos digitais. Uma delas está encerrando as atividades; a outra (suponho), só sobrevive por se tratar de um título que conta com subvenção (leia-se, patrocínios institucionais). Em ambos os casos, o certo é que uma quantidade razoável de leitores fica desassistida, mesmo tendo dinheiro e desejo de compra. Esse é o quadro mais sintomático de escolhas editoriais inadequadas.

Nos Estados Unidos, impressão e distribuição respondem por cerca de 40% dos custos da operação de uma publicação noticiosa (em alguns casos, até mais que isso). Não há nada para supor que no Brasil esses percentuais sejam muito menores (na verdade, o Brasil, com sua constituição demográfica e econômica desequilibrada, sugere valores até maiores). Esses 40% têm, portanto, grande impacto no preço final de um produto jornalístico, mas raramente empresas jornalísticas falam da mutação digital como uma coisa benéfica. Os custos de redação normalmente giram em torno de 15-20%, o que sugere que cortes de qualidade na redação têm um poder muito menor de alívio financeiro do que reajustes operacionais, cortes em corpos diretivos cheios de mordomias ou renegociações de dívidas.

Nos dois casos citados, a natureza da distorção editorial que levou as empresas a não tratarem os títulos segundo a tendência de digitalização apontava, vêm de diferentes origens. Em um dos casos, a empresa detentora do título tem já montado e funcional há décadas uma infra-estrutura de impressão e distribuição gigantesca e cara, onde quanto maior o número de títulos participantes, menor o custo individual e maior o lucro que o processo gera; quanto menos títulos, maior o custo e menor o lucro. No outro caso, as decisões parecem ter sido mais em função do estágio embrionário do consumo digital que existe no Brasil e que leva muitos editores a terem receio de apostar em versões digitais, mesmo quando esses têm fôlego para bancar o prejuízo por um determinado período. Os erros nascem em momentos diferentes do processo de decisões que envolve uma publicação, mas são decorrentes da mesma insistência mencionada no primeiro parágrafo, que é gerada por uma série de paradigmas herdados do impresso.

A Spin e a Newsweek são tão herdeiras desse mindset impresso quanto as empresas donas dos títulos que servem como fio condutor deste texto, mas de alguma forma, optaram pela decisão de puxar os plugues do impresso antes que o impresso puxasse os plugues das revistas. É bem verdade que a Spin e a Newsweek contam com a vantagem de estar um mercado mais maduro, onde as receitas digitais estão mais consolidadadas, mas também é verdade que começaram a sofrer com a invasão digital antes. O que ocorreu foi que os títulos americanos apostaram num cenário futuro incerto em vez de um cenário presente cuja certeza é a de um fim com data marcada.

Revistas em particular são agraciadas pelo meio digital com o nascedouro de uma série de possibilidades infinitas. Quem já viu as versões digitais da Wired ou da Sports Illustrated sabe do que se trata. Grandes publicações que têm recursos para bancar o prejuízo de uma edição digital por alguns anos precisam fazê-lo já, inclusive para adquirirem um expertise que lhes dará vantagem na competição quando o mercado for maduro. É difícil dizer quanto a Spin e a Newsweek garantiram de seus futuros, mas é certo que elas têm mais chances do que as concorrentes que não tomaram as suas decisões. Nesse momento de transição, as empresas responsáveis devem proteger os seus ativos mais importantes – os títulos e as redações – e apostar no futuro. Mais do que uma questão de orgulho, isso é uma responsabilidade do jornalismo junto à sociedade. Chorar o fim de uma era não livrará ninguém das frias planilhas de custos e despesas.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.