O jornalismo pós-industrial – tudo muda e nada muda

Um relatório publicado no final de novembro último, feito por três professores da Columbia University, não traz exatamente nenhuma notícia surpreendente ou inesperada. Ainda assim, Post Industrial Journalism: Adapting to the Presentassinado por C. W. Anderson, Clay Shirky e Emily Bell é o relatório mais bem acabado de uma situação de transição no jornalismo que, quando se encerrar, não deixará a mais remota memória da indústria na qual se baseia jornalismo tradicional.

O jornalismo em si, não vai mudar. A proposta do jornalismo nunca mudou. Alguém sabe uma história, acha que ela interessaria a outras pessoas e a conta da maneira mais adequada, segundo seus propósitos (de maneira mais rebuscada, direta, agressiva, curta, objetiva,  etc). Isso jamais vai mudar. As narrativas jornalísticas, assim como as literárias, mudam muito mas continuam, em sua raiz, iguais. O mesmo não se pode dizer da indústria como um todo. Os fundamentos do setor estão sendo subvertidos; o modelo de negócio não funciona mais; os ciclos não atendem mais o consumidor, mas as comodidades das empresas; o leitor passou de uma ou duas plataformas para dezenas delas e suas demandas foram levadas à exaustão da fragmentação

O relatório compila uma série de dados interessantes (se você não está a fim de ler o relatório, veja aqui uma excelente resenha). Por exemplo: na data de sua publicação, a indústria jornalística entra no 23o. trimestre consecutivo de diminuição de receita. Shirky & co. acusam a indústria jornalística americana de ter perdido qualidade em função do transtorno causado pela mudança no cenário, embora os sinais estivessem aí há pelo menos três décadas. O relatório lembra de um memorando do diretor-geral do Washington Post em 1992, Robert Kaiser, onde ele alerta para a inevitabilidade da mudança, e Kathy Gill, autora da excelente resenha do relatório, desencava um alerta ainda mais antigo, um vídeo de 1981 que mostrava o inacreditável futuro de se receber notícias pelo computador.

A discussão, contudo, sabe das próprias limitações no que diz respeito ao seu alcance. Matthew Ingram, do GigaOm, observa que o estudo infelizmente “prega no deserto e só será lido por quem já sabe disso, mas não terá a atenção das pessoas capazes de fazer alguma coisa”. Ingram toca num ponto que frequentemente abordo aqui, que é o da tentativa desesperada dos midiossauros em manterem-se vivos a qualquer custo, mesmo sabendo que a Era Glacial adiante é inevitável e invencível. Ou, como Gill termina sua resenha, “aguentar as pontas não é o suficiente. Ou você se adapta ou morre”.

Todos sabemos que os midiossauros não vão desistir. Dirigentes de jornais que ainda comandam a maior parte da receita de um grupo não vão entregar o bastão para uma nova geração dizendo “é o melhor para a empresa”, assim como emissoras de TV continuarão tentando montar estruturas digitais desde que elas não tirem as receitas de agora nem ameacem seu núcleo de poder. A ladainha geral é a de que se está tentando salvar o jornalismo, mas não é isso. O que se tenta salvar é o próprio poder. O jornalismo continuará igual, mas diferente. Assim como o glam rock de David Bowie, que vinha envolto em maquiagem. Bowie, certa vez, perguntou a John Lennon, co-autor de um dos maiores sucessos da carreira de Bowie, Fame, o que ele achava do glam rock. “É o mesmo rock’n’roll de sempre, mas de batom”. Assim como o rock, o jornalismo continuará igual, ainda que diferente.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.