O jornalismo não será substituído pela social web – vai melhorar com ele

Cenários de mudança radical são pródigos em gerar prognósticos que depois se revelam ridículos. No fim do século XIX, o cientificismo reinante chegou a sugerir que todas as descobertas importantes já tinham sido realizadas pela ciência; a virada do milênio viu profetas do apocalipse (como havia visto mil anos antes) e crentes no bug do milênio (uma fraude global que originou a pesquisa do jornalista Nick Anderson que virou o livro Flat Earth News. O debate em torno das transformações do jornalismo de hoje prevêem as trevas, em função do desaparecimento do jornalismo de “qualidade” em detrimento dos blogs e seu extremo oposto, a democratização absoluta do jornalismo com a tomada da função pelas redes sociais. Tais previsões nos confirmam a certeza de estarmos vivenciando uma era de transformação, como as citadas anteriormente.

A consolidação das redes sociais em grande escala certamente criaram um ruído tremendo para a agregação de informação. Ao mesmo tempo social-media-marketingem que elas permitem novos fluxos para a informação, criam ruídos ensurdecedores que servem como pistas falsas do que está realmente acontecendo. Os xiitas sociais não conseguem ver a realidade óbvia que é a dificuldade da prestação de contas que a informação adquire nas redes sociais; jornalistas nascidos e criados nas mídias tradicionais reagem com fúria ao meio desconhecido, muito mais por insegurança do que por convicção. E assim, a transição, que não seria simples de maneira alguma, ganha turbulências absolutamente desnecessárias.

Num seminário em 2012, a jornalista espanhola Concha García Campoy reforçou o risco e a vantagem da nova tecnologia, observando que jamais o jornalismo será substituído por elas. Como diria Nelson Rodrigues, só os gênios enxergam o óbvio e assim, a observação da espanhola deve ter algo de genial. Por mais revolucionários que sejam, as tecnologias produzem coisas extraordinárias e tragédias por conta do uso que as pessoas lhes dão. As redes sociais não têm como substituir as reflexões de mentes treinadas para decifrar a realidade, como fazem os bons jornalistas (que não precisam necessariamente ter cursado jornalismo ou serem jornalistas profissionais). Aos postulantes a jornalista que apresentam como credenciais tão somente seus logins de Twitter e Facebook, cabe o papel da “mala digital”, aquele ser inconveniente que externa a própria futilidade criando ruído no diálogo realmente necessário.

Por outro lado, o tsunami informacional da web tem grandes margens potenciais de colaboração. Segundo o jornalista americano John Lee Anderson, o jornalismo parou de fazer as perguntas difíceis, fruto de uma relação nebulosa entre jornalistas e fontes comprometidas com o poder. Grandes empresas têm a sua própria agenda e as necessidades da sociedade costumam vir em segundo lugar. A expansividade e o alcance das redes sociais têm um grande poder em exigir essa prestação de contas, uma vez que entre as megacorporações de mídia, muito raramente se encontram entidades capazes e corajosas o suficiente para desafiar o poder constituído (seja ele governamental ou não).

Em meio a tantos investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias, um se faz mais urgente do que os demais – o de criar ferramentas que possibilitem aumentar a confiabilidade da informação retirada de grandes fluxos de informação, ou big data. O jornalista é um curador de informação e continuará a sê-lo, mas não pode se trancar em sua torre de babel e como antigamente precisa cair no mundo para informar melhor seu leitor. O desempenho desse papel demanda coragem e flexibilidade da parte dele.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.