Despreparo para digitalização também atingiu o El Pais

Em Outubro, o diário espanhol El Pais, um dos maiores da Europa, anunciou uma demissão coletiva que atingiu quase 30% de seu expediente, sendo a maior que o jornal sofreu na história em uma única tacada. Não se trata de uma simples reestruturação do jornal. Com um desemprego que chega a 50% entre os jovens de 18-25 anos, o jornal enterrou a faca na carne para entrar no clima. “Não podemos continuar tão bem se queremos manter El Pais“, afirmou o presidente do jornal aos funcionários [N. do E,: frase de duplo sentido dada a situação da Espanha]. Contudo, o jornal vai pagar a conta pelo seu anacronismo – as dificuldades legais de contratação na Espanha fizeram a folha inchar, manter jornalistas improdutivos, que não lidam com novas mídias e que têm um custo médio alto (quase €90 mil anuais – muito para um meio que vem perdendo receitas. Mas as demissões tendem a não resolver a crise. Uma lição que a mídia brasileira pode aprender agora para crises futuras: a solução é adequar o meio às novas realidades.

Uma vez que as receitas ainda existem no mercado (ainda que menores), conclui-se (como já escrevi mais de uma vez aqui) que o problema dos jornais não é de receita – é de custos. Um administrador pode responder que uma coisa depende da outra, mas nesse caso, é uma meia verdade, porque também há uma mudança tecnológica que possibilita imensas economias aos jornais (quanto os jornais deixaram de gastar, por exemplo com comunicação e impressão, após as digitalizações de ambos)? O problema é que a diferença virou dividendos de ações dos grupos e não investimento em processo e treinamento. O resultado é que o corte de 30% tende a simplesmente criar uma sobrecarga de trabalho nos jornalistas no El Pais se ela não vier acompanhada da reestruturação necessária.

Essa mudança é citada neste post pelo jornalista Juan Varela. Ele aponta uma saída que, apesar de óbvia, não é enxergada pela maioria esmagadora das empresas. Não se trata de um corte de gastos. A mudança não passa por uma avaliação do departamento de recursos humanos, mostrando quem produz ou não, mas sim a manufatura de um novo plano de negócio – e um que não seja um apêndice da estrutura atual, mas sim uma alteração no DNA da empresa, uma vez que o ambiente noticioso sofreu uma mutação do gênero. Qualquer coisa  longe disso é uma tentativa de se curar uma infecção generalizada com um chá de ervas.

No caso de uma publicação tão emblemática quando o diário espanhol, cabe uma reflexão sobre o que representaria a falência de um jornal do gênero. Para o mundo, seria uma perda relevante, mas para a Espanha seria uma catástrofe. Centenas de milhares de leitores perderiam uma referência e todo o jornalismo espanhol, que orbita ao redor do título. Após o golpe, o meio noticioso espanhol se recuperaria – fato que levanta dúvidas na maioria dos jornalistas, desconfiados da participação do público, mídias sociais e afins.

Mudanças do gênero são necessárias ao redor do mundo, embora algumas – as que se referem aos títulos mais importantes – tenham também uma relevância social (retomando, imagine o que significa o El Pais para a Espanha). As empresas têm como fazer as alteracões que precisam. Então, por que as mudanças não acontecem? Na maioria dos casos, porque requerem que se mexa nos interesses de algumas classes e indivíduos, os quais são quem realmente manda nessas empresas. E fazer mudanças mexendo com os interesses de quem manda, ISSO sim é difícil.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.