Ameaça não é o meio digital – é a falta de credibilidade

As publicações nascidas em meios tradicionais hoje vivem uma guerra interna: como manter as estruturas (de poder e de produção) criadas num ambiente monomediático quando simplesmente qualquer pessoa com um smartphone pode ter se transformado em um concorrente em potencial? Isso corrói boa parte dos recursos dessas organizações, ainda que esse questionamento nem sempre seja assim claro (normalmente a pergunta feita abertamente é “como impedir que o digital drene nossa receita”?). O inimigo, entretanto está em outro lugar. Cada vez mais o público acredita menos no que estampam jornais e revistas e o trunfo que poderia ser usado pelas grandes corporações informativas – a credibilidade – foi se deteriorando junto com suas receitas de anúncios em impresso e TV.

Gazzetta Dello Sport, fevereiro de 2002
A home da Gazzetta Dello Sport em fevereiro de 2002.

O achado é resultado de uma pesquisa do Pew Institute e não é surpreendente. Em grande medida, títulos noticiosos centenários se renderam à busca por receita deixando de tratar o leitor como leitor e passando a tratá-lo como cliente. Apesar da noção ser de similaridade para muita gente, existe uma distinção profunda entre os dois. O leitor, às vezes, precisa ser confrontado com verdades incômodas; o cliente tem de sempre ser agradado.

O resultado é um absoluto enfraquecimento da capacidade jornalística de remar contra a maré que sempre marcou os grandes jornais. O modelo que subsidiava o jornalismo de qualidade com a publicidade está sendo corroído com  o terremoto digital e me parece que não terá como ser salvo. Grandes jornais e revistas hoje aumentaram o percentual de seu infotainment a um ponto de transformarem-se em mercearias digitais. É possível constatar isso na capa da maioria dos portais que, hoje, ficaram retalhados com publicidade sem fim. Mas é no jornalismo esportivo que se nota a questão com mais clareza.

Home da Gazzetta, novembro de 2012
Home da Gazzetta em novembro de 2012

A Gazzetta Dello Sport é uma das publicações esportivas mais importantes da Europa e do Mundo. Foi fundada em 1896 e é um excelente exemplo de como o digital mudou a feição das publicações.  Em apenas uma década, a homepage da Gazzetta passou de uma sóbria versão digital do jornal para um irreconhecível frontispício de publicidade – a ponto de obrigar o leitor a usar o scroll down para conseguir ler a manchete principal. Em dez anos, a tiragem da Gazzetta caiu mais ou menos pela metade e seu spin editorial foi de um jornal crítico e não raro desafiador à vontade do leitor para um típico meio de infotainment, onde as matérias são sempre de acordo com o humor do leitor – incensando ou apedrejando o clube, segundo seu rendimento; fazendo matérias que erguiam jogadores a mitos quando iam bem e rebaixando-os ao nível de zebus no dia seguinte. A quantidade de publicidade na primeira página não é um problema em si, mas no caso, um indício de que os valores primordiais da publicação pudessem estar comprometidos.

E estavam. Não por acaso, a Gazzetta – e o jornalismo esportivo de um modo geral –  deixou de fazer jornalismo de entretenimento para fazer entretenimento puro. Nos três últimos escândalos esportivos da década – o Calciocaos de 2006, seu desdobramento de 2009 e o mais recente escândalo de apostas – o jornal só estampou suas manchetes quando a polícia trouxe o caso à tona. O papel investigativo que o jornal sempre fez foi deixado de lado. Em  vez de ditar a pauta, a Gazzetta passou a seguir a agenda do poder no futebol italiano e jamais questionou o poder constituído, mesmo quando havia visivelmente algo de errado acontecendo.

A digressão no jornalismo esportivo neste texto serve somente para ilustrar um movimento que ocorre com a maioria dos meios jornalísticos. Com vendas decrescentes, as empresas adotam cada vez mais um tom sensacionalista ou popularesco para não desagradar o leitor – ou melhor, o cliente – com medo de perder ainda mais terreno. Nessa toada, equivalentes dos deslizes da Gazzetta ao não se antecipar às autoridades para denunciar os escândalos no futebol italiano, a imprensa mundial também prefere cada vez mais o lado doce da notícia e assim,  assistiu um outsider como Henry Markopolos denunciar a fraude de Bernie Maddoff, chocou-se quando a maior empresa de energia dos EUA, a Enron, quebrou aparentemente da noite para o dia e deixou uma legião de credores e não deu nenhum sinal antecipado sobre a Housing Bubble,  que custou aos contribuintes americanos uma dívida de quase US$10 trilhões.

A transição das mídias tradicionais é, por si só, traumática para as grandes corporações jornalísticas, mas poderia ser muito menos aflitiva se os próprios jornais não tivessem corroído a própria credibilidade nas décadas anteriores. Num livro que já mencionei mais de uma vez, Flat Earth Newso jornalista Nick Davies ilustra como o jornalismo vem se comprometendo há pelo menos duas décadas por causa de uma maior pressão por resultados financeiros, pagos com a diminuição de uma série de princípios jornalísticos: tempo, manutenção de jornalistas experientes, independência nas investigações e principalmente a capacidade de dizer a verdade mesmo contrariando o humor do leitor. A diminuição da quantidade de leitores agora é só uma formalidade. Ela ficou decidida quando a pauta passou a ser decidida pelo humor do leitor. Nesse momento, ele virou cliente. Desse momento em diante a “credibilidade” virou pó e os jornais sentem isso cada vez mais.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.