Crise na Grécia transfere credibilidade dos jornais aos blogs

Crises não acontecem por acaso e nem sempre são causadas por pressões exclusivamente externas. Frequentemente elas apontam uma falha sistêmica ou uma falência generalizada dos pressupostos do sistema. Na Grécia, a mídia não se enterrou somente economicamente, graças a um caos no sistema financeiro que  está desmontando o Estado. A mídia tradicional também passou a ser vista com desconfiança, inclusive por empresários e altos executivos do sistema bancário local, por causa de sua parcialidade. E assim, no vácuo deixado pelo misto de incompetência, jogo de interesses e declínio econômico, o cenário noticioso grego começou a ver o fortalecimento de um player marginal, o blog. 

FimotroA coisa fica ainda mais interessante de se estudar porque a maioria dos blogs que estão ganhando espaço no vácuo de qualidade e transparência jornalística não são assinados. A anonimidade é regra porque o conteúdos desses blogs é em grande parte alimentado por jornalistas que ainda trabalham na grande mídia, mas vêem muita coisa não sendo publicada por interesses que guiam – e guiam mesmo – os jornais que dependem de anunciantes. Blogs como o Fimotro e o Press-GR têm leitores altamente qualificados. “Não se pode acreditar em qualquer blog, porque a anonimidade esconde muitas pessoas que querem tirar proveito, mas blogs como o Fimotro são normalmente excelentes”, afirmou um executivo ao site da PBS.

Apesar da situação na Grécia ser muito mais grave (há depoimentos de desabastecimento em algumas cidades em certos momentos) desnivelamento do cenário jornalístico confirma um movimento que coloca pressão no conforto que a grande mídia sempre teve – o de poder vetar ou não o que lhe interessasse. A tendência mais provável é que a grande mídia ainda continue a sangrar durante um tempo até que se dê conta de que precisa recuperar a transparência à qual se propõe publicamente para, assim, evitar que perca leitores que não confiem mais no que se escreve. Nesse processo, não serão poucas as publicações que sucumbirão, reféns de sua própria cultura.

A crise econômica é um fator de aceleração do processo. Diminuem as receitas, diminui a capacidade das grandes empresas de competir com o jornalismo de guerrilha que fazem blogs como o Fimotro e normalmente aumenta a quantidade de escândalos que precisam ser divulgados (porque ratos não perdem a fome quando há pouca comida). O interessante do caso grego é confirmar na prática uma teoria: a de que não ocorre um “desabastecimento” de jornalismo de qualidade quando as grandes empresas saem de cena. Bons jornalistas e pessoas capazes de reportar fatos com precisão continuam a existir. Além do mais, mesmo em situações “estáveis”, a sociedade já convive com escórias jornalísticas sensacionalistas tipo News of The World ou Cidade Alerta. Tentar atrelar jornalismo de qualidade incondicionalmente a grandes empresas é conto do vigário ou auto-engano.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.