O grito por qualidade no jornalismo é corporativismo tosco

As redações, especialmente as de mídias tradicionais e de grandes conglomerados jornalísticos, unem-se quase em uníssono num grito contra a morte do jornalismo de qualidade, assassinado pelo “roubo” de receitas pelo digital e pelo “pseudojornalismo” feito nas redes sociais. Ainda que, de fato, não falte conteúdo rotulado de jornalismo que na verdade não passa de uma retroalimentação de informação, duas perguntas destroem o suposto brado heróico em defesa do bom jornalismo. Primeiro: se a classe e as empresas prezam tanto o jornalismo de qualidade, por que razão que o espaço para o jornalismo investigativo despencou já a partir dos anos 90 (muito antes da ascensão digital)? E por que a queixa contra a má qualidade dos jornalistas só vem agora , muito tempo depois do início das diminuição das redações, sobrecarga de trabalho dos profissionais, exploração do trabalho dos mesmos em mais de uma mídia? O brado por qualidade vindo dos jornalísticos nada mais é que um lampejo sindical egoísta e tardio. O jornalismo não perdeu a sua identidade. O jornalista profissional sim, e há muito tempo. Mas esbravejar contra as mídias  sociais não adianta. Para recuperar a dignidade e o orgulho, é preciso enxergar na tormenta um empuxo e não uma ameaça.

A declaração do jornalista Benjamin Hernandez de que o jornalismo está deslumbrado pela tecnologia é nnao só significativa, como extremamente comum no meio dos jornalistas. Existe uma certa confusão (voluntária ou não) por parte do jornalista profissional sobre a definição do que é jornalismo e do que se diz ser jornalismo. O jornalista profissional vindo de mídias tradicionais tende a combater os dois como se fossem a mesma coisa, num misto de desconhecimento e medo.

Há, sim, muito pseudojornalismo sendo feito em nome da “modernidade” e se confunde engajamento e popularidade (leia-se pageviews, visualizações, compartilhamentos, etc). Nem todo vídeo que bomba é jornalismo assim como uma pessoa com transtorno obssessivo compulsivo que fique tuitando desgovernadamente não é um jornalista porque cria um grande fluxo de informação. Só que o aporte da tecnologia ao jornalismo não se resume a isso – e mesmo isso pode ser utilizado, desde que processado dentro das ferramentas que gerenciam big data.  Por outro lado, a capacidade de manuseio de informação cresceu a um ponto tal que é possível monitorar o humor dos mercados segundo fluxos de informação em Twitter e Facebook. Quem disser que isso não pode ser relevante tem um sério problema de avaliação.

O alcance dos jornalistas também passou a ter proporções inimagináveis com ferramentas de crowdsourcing, por exemplo. Nenhuma agência de notícias no mundo poderia ter dado o furo da morte de Osama bin Laden com a rapidez que o usuário Sohaib Ahtar anunciou o ataque ao esconderijo de Osama no Twitter porque nem tudo acontece onde as agências mandaram correspondentes.

É bem verdade que Norman Mailer ou Gay Talese poderiam ter escrito textos mais ricos do que o tweet de Ahtar, mas também é verdade que a realidade é que o público não vem diminuindo a confiança na imprensa há alguns anos só porque mais amadores entraram no processo. Considerar o que é “qualidade” no jornalismo é extremamente discutível e, por exemplo, algumas capas dadas pelas revistas noticiosas mais importantes do Brasil há muitos anos são dignas dos meios sensacionalistas mais vergonhosos – e o jornalismo não se levantou em coro contra isso.

O ponto principal fica de lado aqui. Há um processo de crescente financialização das empresas jornalísticas e há muito tempo que elas deixaram o jornalismo de qualidade de lado. Contudo, agora, como a água está chegando ao pescoço dada a fragmentação da audiência e das receitas, jornalistas e corporações usam a “qualidade” como validador de suas queixas, mas isso é pura hipocrisia. Um exemplo similar aconteceu com os cinemas no Brasil. Durante décadas, eles se recusavam a exibir produções independentes e nacionais porque davam pouco dinheiro, preferindo a renda certa dos blockbusters americanos. Com a invasão das redes de supercinemas estrangeiras, passaram a se definir como “defensores da qualidade e variedade”. Era a mesma retórica oportunista.

Como não me canso de falar aqui, há várias empresas e projetos que visam dar esses fluxos imensos de informação às mãos dos jornalistas, algo que daria um poder absurdo à capacidade de cobertura, pluralidade e alcance das coberturas. Só que elas não combinam com monopólios, que são o que corporações e classes trabalhistas realmente defendem. Assim, a choradeira não deve adiantar nada. E pela primeira vez a hipocrisia deve ser ineficiente para se alcançar resultados.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.