Ninguém precisa mais de outro modelo do que o jornalismo local

E na busca infinda por um novo jornalismo – um que se sustente além da choradeira de jornalistas, sindicatos e donos de mídias tradicionais que repentinamente começaram a se preocupar com a “qualidade” do jornalismo, eis que encontramos um nicho jornalístico que precisa ainda mais desesperadamente de salvação – o jornalismo local. Como dizia um colega, “é mais fácil eu saber notícias de Nova York do que acontece na avenida perto de casa”. A observação vale para qualquer cidade menor – aqui e no exterior. Os jornais locais são os primeiros a sentir o impacto da revolução digital, porque como trabalham em estruturas muito enxutas,  têm poucas fontes de receita, não  fazem syndication do próprio conteúdo e raramente vendem anúncios para anunciantes regionais e nacionais. Dos 14 jornais americanos que fecharam desde 2007, todos eram locais e a maioria esmagadora das operações que migraram só para o digital também (embora de no caso dos jornais locais, a simples migração é só um canto do cisne antes da morte). Para esse tipo de jornalismo – fundamental para a sociedade – a única saída está numa revolução radical na parte administrativa e no próprio fluxo de produção. Redações locais são inviáveis fora das grandes áreas metropolitanas.

Essa matéria do jornalista Robert Niles aborda o assunto segundo um prisma que eu também defendo há tempos.  “Produção de conteúdo local não dá para escalar” diz Niles, agregando que, apesar disso, ferramentas de produção de conteúdo escalam com certa facilidade, assim como mídia sociais e discussão de tópicos de comunidades. Desenvolvendo o raciocínio iniciado por Niles, produção de conteúdo local não dá para escalar se o modelo de produção for o tradicional. Manter uma redação, por menor que seja, tem um custo insustentável para um jornal de uma cidade pequena, o que acabou criando os “desertos de notícias” que o Banyan Project do veterano jornalista Tom Stites tenta enfrentar.

O Brasil é um cenário mais difícil para imaginar a mudança de paradigma porque aqui a imprensa tem um cunho oficial-governamental desde sempre. O alinhamento da mídia com o poder é quase sempre a regra e muitos jornais locais deficitário mantém-se funcionando com um lixo de produto porque são ferramentas dos chefes políticos locais. Mas sociedades que não tenham essa característica podem pensar em um modelo diferente, uma vez que a morte é certa no modelo atual. Ron Greenslade, do Guardian, sugere o fim da regulamentação para quem fizer jornalismo local na Inglaterra (o que certamente diminuiria os custos).

Mas é preciso ir além. Cortes nos custos corporativos que têm as grandes cadeias de jornalismo são o passo zero porque inviabilizam qualquer projeto (são a gangrena do modelo). Repensar o modo de coleta de notícias dividindo custos e receitas com os fornecedores de conteúdo (i.e. freelancers) são um segundo passo, mas é só o começo. Redesenho do fluxo de produção e da hierarquia dentro do jornal, divisão do notíciário segundo as editorias e segundo os formatos de entrega, criação de comunidades de apoio e uma política digital contínua que mantenha a informação chegando no formato em que for possível (lembre-se: há dez anos, a maioria das pessoas dava risada ao ouvir que leria notícias no celular porque ele é “muito pequeno”.

O ponto aqui é que se o impresso está condenado (e graças a Deus, inclusive ecologicamente falando), os jornais não precisam estar. O que é preciso é refazer o que está feito sem se lembrar do que foi feito antes (a experiência normalmente nos cega). Dificilmente um mercado menos maduro, onde alguns participantes dominam todo o processo graças a ferramentas políticas e econômicas (como, er…o Brasil) pode partir para este novo panorama. É uma pena porque como disse Isaac Mendez, “você não pode lutar com o futuro”🙂

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.