Migração da audiência exige reformulação das redações

As pessoas estão lendo menos jornais. As pessoas estão lendo menos revistas. Claro, isso, em suas versões impressas. Há uma série de explicações comportamentais e econômicas para isso, como a diminuição do tempo livre do cidadão médio, a facilidade do manuseio de várias publicações nos leitores digitais, o aumento da conscientização da questão ambiental, entre outros. O redesenho do perfil do consumidor de notícias está disseminando desespero nas redações pelo mundo e com toda certeza, não exigirá uma única medida para manter as publicações funcionando. Entre elas, está o aproveitamento das oportunidades que a tecnologia está oferecendo e isso implicará não só em mudanças tecnológicas, mas também no modo como se constrói o conteúdo dentro das redações.

Segundo um estudo do Pew Institute, depois da checagem de e-mails, o consumo de notícias é o uso preferido pelos donos de smartphones e tablets. O estudo levanta várias conclusões interessantes. A primeira é a de que os usuários estão dedicando mais tempo à leitura de notícias desde que compraram seus aparelhos, mas além disso, passaram a consumir notícias de mais fontes e que também começaram a consumir mais as matérias mais profundas (o que nós, jornalistas, gostamos de chamar de “jornalismo de qualidade”, embora seja mais um wishful thinking do que a realidade em boa parte dos casos).

A leitura do estudo mostra 1) que os leitores ainda querem notícias e na verdade estão dispostos até a ler mais do que o normal e 2) a audiência não sumiu, mas agora quer poder consumir o produto na plataforma, horário e modo que lhe convém. Jornais e revistas continuam com um problema para encontrar novos modelos de negócios (que existem, mesmo para negócios locais, mas exigem criatividade e reformulação administrativa).

Mas o relatório da Pew mostra sugere um ponto que ainda é pouco discutido. Leitores claramente diferem as plataformas para ler diferentes tipos de conteúdo – hard news normalmente têm a preferência dos dispositivos móveis menores, em horários de estresse, como a ida e a volta para o trabalho, enquanto material de mais profundidade funciona melhor nos tablets e em horários menos apertados.

A maioria das redações e dos sistemas de gerenciamento de conteúdos usados hoje exigem do jornalista algo que ele não tem como fazer (ou melhor, não tem como fazer bem), que é escrever o conteúdo e formatá-lo para diferentes entregas. A lógica é a de um sistema de produção em massa. Mas a verdade é que a fragmentação do público exige uma fragmentação do conteúdo e de seu formato de entrega.

A meu ver, a conclusão óbvia é a de um redesenho no fluxo de produção, com a divisão dos profissionais não só em temas, mas eventualmente também olhando para os diferentes formatos. Por que disponibilizar um artigo de mais fôlego num feed para leitura em celular se a maioria daqueles leitores não terão tempo ou interesse em ler aquilo ali? E porque encher o feed de notas de hard news que perderam a validade em 30 minutos se o leitor está lendo num aparelho  de tela grande com tempo?

Ainda hoje, as redações trabalham com a coluna vertebral do fluxo de notícias de 24 horas e isso é um obstáculo à otimização dos fluxos de consumo do conteúdo. As redações precisam de novas divisões que não definam somente os assuntos, mas também para qual tipo de formato cada conteúdo deve ir. No caso de um mesmo conteúdo ir para diversos feeds, equipes de profissionais que não estejam ligados à apuração e produção farão a otimização para aquele fim. Fazendo uma analogia banal, frequentadores de pizzaria receberão pizzas e frequentadores de sorveterias, sorvetes.

A sugestão aqui não é a de inchar mais um sistema já maior do que precisa ser. A criação desses novos papeis tirarão do jornalista “clássico” (entenda-se, aquele que apura e escreve a matéria) o fardo de ter de fazer inúmeras adaptações antes de colocar o material no sistema para que ele possa ser lido no celular, tablet, RSS, etc. (quem já trabalhou com um CMS sabe do que se trata. Ex: “Título para celular”, “Título para tablet”, “manchete para RSS”, e assim por diante). A produção ficou burocratizada de um modo estúpido, onde tenta-se vender a mesma coisa mais de uma vez para o leitor, sendo que a adaptação para os diversos formatos é feita de maneira tosca e sobrecarregando um profissional que não consegue ver o quadro todo.

Existe uma lógica herdada da Revolução Industrial também no jornalismo, que é a de se  tentar fazer com que o operário (i.e. jornalista) faça o maior número de funções possível para otimizar o investimento nele (i.e. salário). Mas essa lógica bicentenária não funciona mais. A pulverização de público e conteúdo exige um novo processo onde as tarefas braçais sejam feitas por máquinas, quando possível, com a supervisão de bons profissionais. Em vez de aumentar a pressão em cima do jornalista, é preciso deixá-lo só com o ônus de apurar e escrever textos melhores e que interessem mais ao leitor, também porque vieram pelo caminho certo e empacotados da maneira certa. Reduções de custo terão de vir de outro lugar – diretorias, conselhos, vice-presidências, etc. A migração da audiência é uma grande oportunidade – uma nova Corrida do Ouro do Alasca.Para aproveitá-la é preciso se livrar de alguns paradigmas.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.