Twitter é primeiro formato “moderno” de empresa de mídia

O microblog Twitter se transformou em uma ferramenta decisiva para o fluxo de informação no mundo. A limitação de 140 caracteres, inicialmente um entrave para sua utilização, garante que a ferramente ocupe um espaço que nenhuma outra mídia tinha como ocupar – a de uma versão do Ao Vivo televisivo na era digital. Mais que isso, o Twitter tem as vantagens e méritos da transmissão em tempo real herdadas da TV com duas vantagens competitivas devastadoras: alcance de cobertura aumentado exponencialmente (pode-se encontrar fontes de transmissão desde a repressão na Síria até as tentativas de assassinatos de extremistas americanos nos EUA) e uma dinâmica de fluxo descentralizada, similar à da Internet, que é praticamente uma apólice de seguro contra a manipulação da informação. Mesmo com as decisões questionáveis da empresa nos últimos tempos (entrada de um sócio saudita no capital da empresa, parceria com a NBC durante as Olimpíadas e consequente censura de um jornalista que criticava a NBC), o Twitter é a primeira mídia funcional de massa exclusivamente da era digital). 

A natureza amorfa da mídia digital pode levantar um debate  quanto à discussão sobre a pertinência de se chamar o Twitter de uma mídia. Afinal, boa parte de seus conteúdos não é original, se sim, composto de links para material feito por outras empresas. Porém, o microblog tem uma quantidade consistente de conteúdo produzido exclusivamente para o consumo nos seus streams de conteúdo. E mesmo o material produzido para outros suportes precisa ser empacotado de modo específico para o Twitter. No fim das contas, a restrição de 140 caracteres – inicialmente um visto como um obstáculo – assegurou que todo seu conteúdo tivesse um grau de exclusividade.

O Twitter tem um problema comercial que o mercado considera sério – ainda não tem um modelo de negócios equivalente à sua penetração maciça (supostamente, de 500 milhões de usuários ativos). Contudo, como os IPOs digitais recentes têm se mostrado extremamente falaciosos (Facebook e Groupon in primis), a dificuldade do Twitter em dizer de onde virão as receitas pode vir a ser até vista como um sinal positivo no futuro.

O ponto é que nenhuma empresa de mídia do mundo (e mesmo redes sociais puras como o Facebook) pode se dar ao luxo de não pensar em sua estratégia de tráfego para conteúdo sem levar em consideração o gerenciamento do microblog. Desde a facilidade em receber feedback até a amplitude do alcance de seus próprios funcionários, o Twitter precisa ser considerado à parte. E essa singularidade é que garante que mesmo sem um modelo de negócio distinguível e tradicional, a empresa está colocada no futuro da mídia (com muito mais sucesso do que o Facebook, que agora tem acionistas ensandecidos por resultados crescentes).

A dificuldade de classificação do Twitter é uma herança de uma outra divisão da mídia em si. Quanto à TV por exemplo, jamais se teve dúvida: as emissoras produziam conteúdo; as fábricas produziam os aparelhos. Na mídia digital, essa divisão ficou borrada e o microblog se situa entre os dois. Em tese, a posição do Twitter, mesmo sem um modelo de negócio completamente claro, é cômoda. A empresa tem um produto que as empresas de mídia E de hardware precisam. A empresa pode se aproveitar de sua natureza híbrida. Essa é uma vantagem grande sobre os outros players digitais.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.