Censura do Twitter põe em jogo sua credibilidade

Se o Twitter não pode proteger a nossa liberdade de expressão, então não é uma plataforma de maneira nenhuma“. A frase de Jeff Jarvis expõe a maior ameaça existente à plataforma de microblog mais popular do mundo. Ela foi dita no mês passado, quando, durante a cobertura da Olimpíada, um correspondente do Los Angeles Times criticou a cobertura da NBC, detentora dos direitos de transmissão do evento para os EUA e parceira do Twitter no evento. O Twitter ter um modelo de negócio menos claro do que os de outros players de mídia digital não é uma ameaça à sua existência. Ter sua credibilidade questionada, é. Existe um bem agregado valioso a muitos dos participantes da mídia digital que frequentemente não é alinhado no inventário de muitos deles e que, se não notado, pode passar a ser um ex-item no espólio dos mesmos. Trata-se da neutralidade.

Em tese, a neutralidade deveria ser uma das coisas mais simples de se conseguir oferecer a um cliente. Basicamente, Twitter is free...right?todo objeto no universo tende a esse estado até que alguma força seja aplicada a ele. Daí em diante, a neutralidade deixa de ser natural e passa a exigir esforço. Quando o assunto em questão é a capacidade de empresas de entregar um serviço ou produto que não se submeta a  interesses que não os do cliente, manter a neutralidade vai exigindo cada vez mais esforço. Só que o Twitter não tem opção.

A lógica não vale só para o Twitter. Cada mudança que o Google faz no seu algoritmo de busca gera uma grande discussão quanto à lisura do seu produto; se a Apple decide que não vai mais carregar um determinado aplicativo na nova versão de um produto seu, idem; se a Amazon ou o PayPal ou qualquer outro fornecedor atendem a uma pressão para satisfazer um terceiro, estão abrindo mão de sua neutralidade. Na cobertura da Olimpíada, o Twitter fez isso ao fechar a conta de Guy Adams depois que ele postou o e-mail de um dirigente da NBC (que, realmente, fez uma cobertura ridícula do evento, estabelecendo prioridades muito questionáveis).

Tecnicamente, os advogados do Twitter podem ter razão para dar sustentação à medida argumentando que Adams quebrou os termos de serviço do contrato entre ele e o microblog. O problema é que ao interpretar a lei dessa forma, o Twitter visivelmente entregou o ouro para o bandido e demorará muito (se é que um dia conseguirá) para recuperar a credibilidade trincada no incidente.

Na geração anterior da mídia imaginar que uma empresa que fatura centenas de milhões de dólares por ano se arriscaria para não ser injusta ou imparcial era absoluta ingenuidade. A mídia digital mudou isso, desde que certos parâmetros estejam seguros – como por exemplo a proibição do traffic shaping – o direito de cada provedor de acesso à Internet de escolher que dados quer transportar e de que modo. Twitter, Apple, Google, Amazon e outras empresas que manipulem informações usadas por usuários precisam se comprometer individualmente com esses usuários e com esses usuários somente (claro, desde que o mesmo não esteja infringindo a lei, como por exemplo fez o infame vídeo Innocence of the Muslim, que gerou os protestos no Oriente Médio que culminaram na morte do embaixador americano na Líbia. A fragmentação dos pólos de informação acabou com o poder dos antigos gatekeepers. Agora, se for para trocar uma emissora de TV corrupta que vende seus interesses ao melhor pagador por um equivalente digital, então, a evolução tecnológica não valeu de nada.

O veredito não está dado e o Twitter ainda tem muito mais pontos a favor do que contrários no que tange à sua credibilidade, à sua exclusividade como formato de mídia e ao seu lugar de disseminador democrático de informação na mídia digital. Mas conforme a receita e os investimentos aumentam, as ameaças também se multiplicarão. E ao contrário da época em que havia meia dúzia de emissoras de TV, ficou muito mais difícil de guardar esqueletos no armário.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.