O dia em que um blog derrubou CNN e Fox News

Quando Dan Rather, lendário âncora da TV americana esnobou os blogueiros de política americana que contestavam uma história que ele tinha publicado, dizendo que não ia dar atenção a um grupo de “caras de pijamas sem qualificação”, estava cristalizando a sensação básica que os profissionais de mídia têm da exclusividade que têm de sua própria atividade – a de contar histórias, levantar fatos, pesquisar eventos. Rather certamente não sabia que sua demonstração de preconceito também daria o golpe final em sua carreira – ele anunciou a aposentadoria após o incidente. Quasee 10 anos depois, a maioria esmagadora dos jornalistas ainda vêem todos os blogueiros como “caras de pijama sem qualificação” e seguem vivendo num grande mundo de negação. Na decisão da Corte Suprema Americana sobre a reforma no sistema de saúde do país proposta pelo presidente Barack Obama, mais uma vez a mídia escorregou na própria arrogância e tomou um ippon dos “caras de pijama”. Só que agora – e cada vez mais – ignorar os tais caras ficará difícil.

Num resumo curto e grosso da história, o blog SCOTUS(acrônimo em inglês para “Corte Suprema dos Estados Unidos”, que é um blog especializado na cobertiura da instituição) foi o primeiro meio de comunicação nos EUA a interpretar corretamente a sentença da Corte Suprema sobre o Patient Protection and Affordable Care Act (“Ato de Proteção ao Paciente e à Assistência de Saúde acessíveis”), apelidado de Obamacare. A sentença da Corte foi favorável ao projeto, mas a mídia em massa apontou que a Corte tinha derrubado o Obamacare, onde a ultraconservadora Fox News e a CNN mantiveram essa posição com particular insistência por várias horas.

A demonstração de como o sistema de mídia está esquizofrênico como um todo é que o SCOTUS cumpriu seu papel jornalístico com mais louvor sendo que é tão esnobado que nem tinha credencial para estar na Corte na hora da divulgação da sentença. Jornalistas e meios de comunicação ainda vêem (ou pelo menos viam) o SCOTUS como “os caras de pijama”, sem se dar ao trabalho de avaliar de maneira clara a qualidade do trabalho que faziam. Diga-se de passagem, esta é a postura padrão de profissionais e empresas, e, justiça seja feita, é filha de um corporativismo que aflige a maioria das profissões. O blog matou a pau os profissionais de duas das maiores empresas de mídia do mundo somente pelo fato de que eram realmente bons nisso. Talvez não saibam falar de previsão do tempo, ou da corrida para a prefeitura de Waco, mas quando se trata da Corte Suprema Americana, sai da frente.

O relevo que tem a opinião de alguém que escreve num jornal ou revista famosos vem de três máximas. A primeira é a de que aquele meio de comunicação escolhe cuidadosamente os melhores para produzir o conteúdo oferecido ao leitor; a segunda, é que jornalistas estão melhor equipados para o “fazer jornalístico” do que a maioria das pessoas; a terceira, é a de que amadores não produzem conteúdo de qualidade. A primeira não é mais verdade (se é que foi um dia); a segunda idem e a terceira não é nem jamais foi real.

Nas últimas décadas, jornais e revistas deram uma violenta guinada nas suas prioridades, deixando a qualidade de lado para aumentar os lucros e as redações de 99% das publicações hoje tem profissionais mais jovens e menos custosos. A lógica da escolha dos jornalistas deixou de ser “quem escreve melhor” para “quem pede menos”. A mudança também se deu nos cursos de jornalismo (no Brasil, mais do que em qualquer outro lugar): a quantidade de cursos aumentou de modo exponencial e a exigência e qualidade decaiu em mesma medida, “ajudada” pelo desmonte sistemático dos sistemas públicos de educação. Jornalistas recém-formados incapazes de escrever um parágrafo sem erros de português certamente são maioria.

Com relação aos amadores, o preconceito em relação a eles vem da consolidação das primeiras universidades na Europa no começo do século XIX, onde os acadêmicos blindaram os centros de pesquisa para transformá-los em pequenos feudos (onde, como várias escolas podem comprovar, semicompetentes inseguros campeiam no “medo” da concorrência com o conhecimento alienígena a essas instituições). Contudo, amadores sempre produziram materiais de qualidade. O escritor francês Jean-Jacques Rousseau, entre escrever O Contrato Social e Da Educação, escreveu uma ópera. O ator Hugh Laurie além de atuar, também escreve e é músico nas horas vagas; o monge Gregor Mendel era um monge agostiniano, mas basicamente fundou a genética; Faraday e Thomas Edison fizeram muitas de suas contribuições fora de suas áreas de especialidade. Jeff Howe, o criador do termo crowdsourcing, diz que a contribuição coletiva que caracteriza o mesmo se faz exatamente porque muitas pessoas têm habilidades que vão muito além do que está escrito nos seus cartões de visita, e em muitos casos, só não puderam seguir esta outra carreira por exigências de sobrevivência.

Há um outro fator que aumenta as chances dos “amadores” na produção de conteúdo, que é a decadência do sistema de ensino. Com fontes digitais sólidas de conhecimento à disposição, a quantidade de indivíduos que está se educando fora dos sistemas formais cresceu absurdamente. Por outro lado, diplomas formais têm cada vez menos significado, uma vez que a educação virou um negócio a tal ponto que a quantidade de faculdades risíveis explodiu e essa fábrica de diplomas inundou o mercado com títulos cujo valor real é zero, ou quase. Isso para não falar nas empresas que oferecem diplomas falsos, como esta. Segundo o FBI, 1% dos 1.3 milhão de diplomas emitidos todos os anos nos Estados Unidos é falsa.

O episódio do SCOTUS x Fox+CNN tende a se repetir com cada vez mais frequência. Nichos de conhecimento não têm como gerar a renda necessária para se tornar interessante para uma corporação, mas podem ser extremamente lucrativos para companhias enxutas e que ofereçam um produto realmente melhor que os outros. O monopólio da produção de conteúdo caiu e no longo prazo, as Fox’s da vida têm de se reinventar trazendo os SCOTUS e os “amadores” para dentro de seu fluxo de produção se não quiserem desaparecer.

 

 

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.