Gigantes da tecnologia, o obstáculo mobile e as possíveis alternativas

Quando uma empresa tem suas receitas na casa dos bilhões de dólares, como Google (GOOG) e Facebook (NASDAQ:FB), e lucros maiores do que 50% de seus faturamentos, é de se imaginar que não haja limites para o que elas possam fazer. Afinal, dinheiro compra talento e se esse talento tem os recursos necessários, o céu é o limite. Mesmo com esse cenário, os dois gigantes da tecnologia têm diante de si, até agora, um obstáculo que pode decidir o futuro das duas empresas no médio prazo – a plataforma de telefonia móvel, ou mobile. Se há tanto dinheiro em caixa, como é que as duas empresas ainda sofrem mais que o necessário para conseguir resultados modestos diante do investimento?

Antes de continuar, é preciso fazer uma distinção. Mesmo se não tem nem de longe o papel em telefonia móvel que tem no resto de suas operações, o Google tem posição muito mais confortável na arena. Inferior ao sistema operacional da Apple ou não, o Android é uma espécie de Windows do Mobile, habilitando-se a todos os concorrentes do iPhone e tornando-se o sistema de mobile mais popular do mundo. Além disso, ferramentas como o Google Maps e Mobile App também são referenciais. Isso não deixa de lado lançamentos que não emplacaram por falta de sintonia com o ‘core’ do assunto, como o Google Wallet, Reader, Navigation, Voice, entre outros. A exemplo do que aconteceu com o Google+, a empresa erra mais do que o normal quando se trata de mobile. O “porquê” vem a seguir.

O Facebook tem uma situação muito pior do que o Google quando se trata de celular. Seus aplicativos são ineficientes, entregam uma experiência muito inferior à do desktop e – mais preocupante do que tudo isso para a empresa – não exibem os anúncios que são o ganha-pão da companhia. Toda a estatégia de móvel do Facebook é pobre, quando a empresa prometia exatamente o contrário antes de lançar suas ações na Bolsa (algo que chegou a forçar a mudança do texto da oferta inicial de ações). As metas prometidas pelo Facebook aos seus acionistas são difíceis de conseguir com uma estratégia e performance excepcionais para mobile e virtualmente impossíveis sem monetizar o tráfego nos celulares, onde estima-se que, só neste ano, esteja uma receita potencial de cerca de US$20 bilhões.

O que explica que executivos espertos e inteligentes fracassem na hora de avançar sobre um novo mercado? Isso já aconteceu inúmeras vezes, na história, com titãs de seus mercados, como a PanAm, General Motors, Sears e mais recentemente, a Microsoft, variaram entre uma atuação medíocre e mortal para seus negócios. A resposta está no cerne da cultura de cada empresa e do modo como seu DNA está (ou não) programado para mudanças. Ese mudanças são difíceis, imagine mudanças sob a pressão de um cenário que muda com uma velocidade supersônica.

Esta matéria da Forbes é um ótimo exemplo de como a Microsoft amarrou os cadarços de cada um dos pés quando ainda estava no topo da indústria de tecnologia. Na companhia, um sistema distorcido de avaliação de rendimento dos funcionários tirava o foco dos empregados em buscar inovação e os obrigava a participar da guerra política dentro da companhia. Os criativos que se frustravam com o sistema deixaram a empresa e permaneceram e evoluíram os que eram talhados para fazer alianças políticas, mesmo que fossem medíocres na tarefa de criar produtos inovadores. O problema foi criado pela própria empresa atendendo à demanda de sua cultura interna. Ou seja: o mindset da Microsoft impediu a própria criatividade e a condição de “maior empresa do mundo” colocou uma venda nos olhos para possíveis soluções externas. Os possíveis parceiros viraram concorrentes e até hoje a MS vive dos problemas de seu gigantismo.

O exemplo não pára aí. O Google hoje tenta lutar em praticamente todos os frontes com os líderes de mercado: tablets e mobile, com a Apple, redes sociais com Twitter e Facebook, publicidade, com uma série de rivais (embora seja o líder absoluto) e até em nichos “menores”, como gaming, produtividade e etc. Apesar da dominância em muitos desses setores dependam dessa estratégia tentacular, é inegável que a empresa perde seu foco – ainda que continue excelente no seu ‘core business’, a busca.A questão é saber quanto durará a dominância na busca e se o delírio da multicompetição não vai criar uma nova Microsoft.

O Facebook adota uma abordagem diferente. Embora tenha lançado produtos diferentes dentro de sua plataforma (como o Facebook Places, por exemplo), parece compreender que antes de se aventurar alhures, precisa melhorar o básico – que já foi sua plataforma web, mas cada vez mais é a conexão para telefonia móvel. Não à toa, comprou uma start-up que demonstrou grande competência em desenvolver um app de mobile, o Instagram, e com a compra do Face.com, um software de reconhecimento facial, terá grande versatilidade na ingestão de conteúdo via celular. Zuckerberg ainda não caiu na tentação de criar tentáculos como o Google, mas em compensaçnao, tem uma receita de pouco mais que 10% que o time de Brin e Page.

De uma certa forma, é compreensível que empresas que dominaram o mercado por décadas sejam tão inflexíveis em relação à própria cultura, mas para companhias relativamente novas como Google e Facebook, descobrir essa incapacidade de pensar soluções fora de suas linhas de ação.Mas se a velocidade das mudanças dificultas abrir novos frontes de competição, não é o caso de questionar se essa é mesmo a melhor saída?

E se em vez de “competir”, a saída for “associar”?

A migração do tráfego para os aparelhos portáteis está sendo mais rápida do que o imaginado e obriga as empresas a acelerarem seus processos. Se não o fazem, acabam superadas por start-ups que podem até ter menos dinheiro, mas têm foco e obstinação por um determinado assunto e não carregam dogmas de empresas mais antigas, O processo de evolução natural estea com uma velocidade cada vez maior e os gigantes precisam aprender a pensar como novatos também. Alianças com “rivais” parecem fazer mais sentido do que abrir divisões novas submetidas ao interesse fundamental da companhia. Com o atual estado das coisas e com a velocidade que tudo muda, a palavra de ordem é muito mais “associação” do que “competição”. Senão, em vez de um grande vencedor, teremos muitos grandes perdedores.

Existe uma questão ligada à presença das empresas nas Bolsas de Valores. Wall Street cobra somente um resultado que é um lucro maior e raramente há espaço para reflexões típicas de mudança de paradigma. Contudo, mesmo a pressão predadora dos serviços financeiros começa a mostrar rachaduras (o escândalo da LIBOR com JP Morgan e Barclays na berlinda, além da crise de 2008), mostra isso. Como a indústria da tecnologia deve ser a base da economia futura do planeta, talvez fosse o caso de repensar. E a chance para repensar está passando agora, mas pode não voltar.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.