Jornalismo, morte e reinvenção – também no ensino

A revolução digital no jornalismo começou há mais ou menos cinco décadas, com a entrada das primeiras ferramentas não-analógicas nas redações, consolidando-se nos anos 70 (telex e primeiros computadores) e passando a ser a ferramenta dominante na manipulação de dados nos anos 80 (fax, editores digitais de texto). O que era uma marola, virou uma onda e hoje é um tsunami. Basicamente as empresas de informação que não priorizam a entrega digital de seu produto estão cada vez mais com a corda no pescoço. Isso não significa que a atividade jornalística esteja em risco. Ou melhor: o “espírito” dela não está, mas a parte concreta, como os processos, práticas, ferramentas e protocolos herdados do impresso/televisivo/radiofônico, estão condenados à morte. A morte, neste caso, não significa o fim, mas uma reinvenção. A função do jornalista de ombudsman da sociedade depende do sucesso dessa reinvenção, que não trata só da prática, mas de como a educação de novos jornalistas se dará.

Há uma batalha em curso e ela não pode ser vencida pelas grandes empresas de mídia – pelo menos enquanto elas não se derem conta do que estão enfrentando. E não é fácil descobrir isso com exatidão. Há uma imensa quantidade de elementos em alteração e cada empresa é mais ou menos afetada por  uns, mas não por outros. Até aqui, a resposta mais comum é a herdada do jornalismo do século XX – cortes na redação, crescimento da cobertura popularesca que atrai público fácil, reaproveitamento de conteúdos para várias mídias, com variações de empresa para empresa. Todas se arriscaram em incursões digitais, mas poucas no mundo (e nenhuma no Brasil) estabeleceram um plano de longo prazo com base nas áreas em que precisavam reagir com decisão.

A primeira e mais dura alteração vem do fato de que o jornalismo deixou de ser um monopólio dos jornais e principalmente dos jornalistas. Twitter, Reddit, Wikipedia, Storify, as redes sociais e uma série de outras ferramentas colocaram o pé no jornalismo e, ainda que nenhuma delas consiga refazer o retrato que o jornal conseguia, todas conseguiram fazer com que o próprio jornal também não consiga, porque esse retrato não é mais possível. Isso para não falar nas plataformas de publicação mais próximas do antigo jornalismo – blog e websites – que a tecnologia deixou ao alcance de qualquer um (e não que isso não tenha um preço, pois sempre haverá mais joio que trigo). O ponto aqui é que poucas empresas no planeta podem tentar competir em uma gama muito grande de frentes (como o Google, por exemplo). A hora é de que cada empresa decida o que quer ser, qual seucore business e como deve abordar o seu campo de batalha.

Há campos do jornalismo tradicional que estão encontrando soluções e até se beneficiando delas. Por exemplo, no mercado de revistas, só publicações muito obtusas mesmo estão dando murro em ponta de faca (como uma que cobra mais caro pela assinatura digital do que pela impressa e cobra por um app que traz anúncios). As revistas descobriram um repertório espetacular de ferramentas para complementar a sua obra. O jornalismo local ainda não se encontrou, mas tende a se aproximar mais da comunidade, tanto na audiência quanto na produção, solução que diminui custos graças à tecnologia e pode dar maior controle editorial aos interessados. Sem falar que acaba com a farsa do “estagiário”, que na verdade é um profissional ganhando salário fracionado sob a pretensa vantagem de “aprender”, mesmo ele trabalhando como um jornalista senior em muitos lugares.

O ego dos jornalistas precisa responder à sua razão. Bons jornalistas, aqueles capazes de levantar histórias, apurar fatos, fazer reflexões complexas, relacionar pontos aparentemente indistintos, não é substituível por qualquer pessoa. As habilidades inerentes ao bom jornalismo não vão desaparecer e algumas práticas seculares são tão fundamentais hoje quanto na cobertura de John Reed sobre a Revolução Soviética. Mas há pessoas com todas essas qualidades que não precisam necessariamente jornalistas. No rascunho desse novo jornalismo, esses profissionais têm lugar garantido desde que compreendam que a colaboração de fontes de informação e instrumentos de narrativa não-ortodoxos tenham de entrar no jogo. Redações mais arejadas já se deram conta que podem tirar grande proveito das novas ferramentas. Por outro lado, não faaltam companhias que seguem à risca o manual da extinção e preferem se agarrar à tradição e força que acreditam que suas marcas têm. É seguro que uma marca confiável é um recurso de peso, mas mesmo grandes marcas perdem terreno e correm risco de morrer.

Dois fatores são o alicerce da reinvenção do jornalismo na era digital. Primeiro, a absorção das possibilidades das novas tecnologias pelos profissionais forjados na máquina de escrever. É uma tarefa difícil, porque exige uma reinvenção do próprio profissional, suas crenças, hábitos e dogmas. Mas é necessário. Esses profissionais (os competentes, porque há milhares de profissionais experientes que não valem um níquel) têm um asset valiosíssimo, que é a paixão e personalidade que trazem na bagagem (como retrata esse excelente artigo da Forbes).

O segundo é ainda mais difícil porque depende do Estado, ainda mais do que da sociedade: a educação de jornalismo está cerca de 60 anos atrasada. As escolas estão repletas de professores que se refugiaram na academia por medo ou incompetência de agir no mercado e como conseqüência, não prepara os estudantes para o mundo real. Há uma grande lacuna de habilidades entre os novos jornalistas (no caso brasileiro, dramaticamente maior, porque o fraudulento sistema de ensino permite que alunos semianalfabetos consigam concluir faculdades).E não resta dúvida que a procura pelo ensino em jornalismo está mais em alta que nunca. Como curiosidade, 10 das 10 buscas mais feitas no Google com a palavra “jornalismo” fazem menção à educação em jornalismo.

O mercado de notícias está mudando radicalmente e somente os alunos que têm iniciativa própria conseguem se proteger, aprendendo por si mesmos e entre este mercado e a academia, o intercâmbio é baixíssimo (em alguns casos, nulo). Alunos que têm a chance de ter bons professores que, por si mesmos decidem redesenhar os currículos, são sortudos, mas minoria. Paralelamente à falência do estudo tradicional, especialmente onde o Estado cuida da Educação com desleixo máximo, a própria educação se reinventa, e cursos de educação à distância crescem em quantidade e qualidade. Estudos já mostraram que cursos online podem ser tão ou mais eficientes do que os presenciais, mas ainda há um gigantesco hiato de legislação e fiscalização que permite que, também aqui, haja mais joio que trigo.

As mudanças no jornalismo são de nível 10 na escala Richter. A educação também precisa de uma reinvenção que coloque a pesquisa em contato com o mercado pois hoje, o profissional não encontra quase nunca um suporte pertinente nas pesquisas (que são muito mais originadas com a facilidade de conseguir um título do que com a necessidade de encontrar soluções). De qualquer forma, mudar não é necessariamente ruim, e neste caso, não chega nem a ser uma opção. Na verdade, quanto mais tempo perdermos tentando tirar os midiossauros da lama, maior será o período de caos no qual a transição se dará (porque, não tenha dúvida, o caminho é esburacado). O jornalismo não vai morrer. Ele só precisa deixar que suas novas gerações venham à tona, em vez de brigar com elas.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.