Google e Facebook estão posicionados hoje num local inalcançável pela concorrência em dois dos quatro setores da tecnologia de comunicação. O Google é imbatível na busca e o Facebook não tem rivais nas redes sociais (os outros dois players são Amazon em infraestrutura e Apple em hardware). Só que a concorrência está se mexendo, porque tanto Google quanto Facebook têm dois calcanhares de Aquiles , como a invasão da privacidade e a audiência em celulares (que falarei noutro texto). E é por isso que estão para se iniciar as “Privacy Wars”.

Legislação de privacidade será fundamental para gigantes da mídia digital.Os faturamentos bilionários dos dois gigantes americanos se dão basicamente pelo seguinte: os dois têm como dar aos anunciantes perfis tão completos e precisos sobre o público que a eficiência dos seus espaços publicitários sobre à estratosfera. Isso acontece porque cada vez que um de nós visita um dos dois sites, deixa (conscientemente ou não) grandes quantidades de informação sobre nossas vidas – de onde somos, que idade tempos, que assuntos nos interessam, coisas com as quais nos identificamos, etc. Bem tabuladas, essas informações se transformam num prato suculento para os anunciantes que pagam muito caro por isso – enquanto o Google gasta relativamente pouco para oferecer esta plataforma, gerando mais de US$9 bilhões de lucro em 2011. Apesar do IPO recorde, a arrecadação do Facebook ainda é muito menor (menos de US$4 bi contra quase R$38 bi do Google).

O ponto fraco dos dois titãs é a privacidade. Indiscutivelmente, os dois vão muito além do razoável em termos de privacidade, tornando os consumidores praticamente vítimas do poderio publicitário e chegam aos limites da lei. “Aos limites”, eu disse? Talvez seja um pouco mais do que isso. Não por acaso, o Google responde a uma mega-ação legal na Europa e tudo indica que o Facebook deva vir a ter problemas em relação à legislação de privacidade conforme os meios digitais passam a amadurecer. A questão é crucial para o desenvolvimento, estagnação ou redução de receitas de publicidade para ambos – ou seja, a espinha dorsal do negócio.

Nos últimos meses, com muito menos alarde do que o IPO da empresa de Mark Zuckerberg, coisas importantes acontecem no subsolo da indústria de tecnologia. O Do Not Track, uma tecnologia que impede que o usuário seja “seguido” em seu comportamento enquanto navega na Internet (ou outro ambiente digital), começou a ser adotado por megacompanhias. Primeiro, o Yahoo! anunciou a adoção do DNT, como parte de uma política maior de preservação da privacidade do usuário. Depois, o Twitter também anunciou que apoiaria a tecnologia e finalmente, a Microsoft anunciou que a nova versão de seu navegador, o Internet Explorer 10, virá com o DNT habilitado – ou seja, o usuário comum navegará sem saber que está “protegido” pela ferramenta. O Firefox, navegador da Mozilla, já tinha o Do Not Track habilitado há algum tempo.

A medida é uma tragédia para empresas que, como Google e Facebook, tornam-se muito mais atraentes para anunciantes por causa da habilidade de rastrear os usuários ao longo do ambiente virtual.  A tecnologia criará lacunas no rastro deixado pelos usuários que tornarão a informação muito mais difícil de ser utilizada – e por isso, menos valiosa. E estamos falando de pesos-pesados aqui. O Yahoo! recebe mais de 700 milhões de pessoas por mês; o Twitter tem mais de 140 milhões de usuários ativos. Firefox e Internet Explorer respondem por quase 50% dos browsers utilizados na Internet. Não há chance dos quartéis-generais de Facebook e Google não estarem pensando nisso.

Além dos fatos, há os indícios que o movimento maciço em direção ao DNT sugerem que a indústria pretende cobrar a sua parte na imensa arrecadação dos dois gigantes. A pressão corporativa que deve haver por uma legislação maior em relação à privacidade deve ser da mesma medida da que afetou a Microsoft quando a empresa, no fim dos anos 90, começou a ser acusada de concorrência desleal com o então absoluto Windows. A adoção do DNT não é somente uma medida de respeito ao usuário, mas a colocação de um ingrediente tóxico para um concorrente forte demais. O objetivo não é necessariamente matá-lo, mas obrigá-lo a ceder parte de sua vantagem, ao menos.

O contragolpe terá aliados fortes. A Associação Nacional de Anunciantes dos EUA já manifestou repúdio à decisão da Microsoft, mas naturalmente a empresa fundada por Bill Gates já deve ter imaginado isso. Espere por novos desdobramentos da pressão por mais ou menos rigor na legislação de privacidade. Ela não decide só se você está sendo mais ou menos vigiado, mas principalmente, se os donos do jogo estão faturando mais ou menos e em última instância, isso decide o jogo, somente com sociedades bem organizadas podendo reagir.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Mídias Sociais e User Generated Content no Yahoo. Também mantém o blog 90 Minutos.