Dá para evitar que o crowdsourcing diminua o valor do trabalho?

Não há no mundo um argumento mais convincente, mais poderoso, mais magnético do que mencionar ao dono do capital a possibilidade de ter “custos menores”. As atividades em crowdsourcing podem ter dezenas de vantagens e versatilidade, mas é o corte de custos que brilha nos olhos dos empresários e investidores. Esse preço geralmente é pago pelo fornecedor dessa mão de obra (pelo menos no caso do uso de crowdsourcing como substituição à força de trabalho). A descentralização da oferta de trabalho é um processo muito mais antigo do que o moderninho crowdsourcing, certamente, mas é um dos argumentos mais ferozes contra a disseminação da colaboração de trabalho. A questão que se coloca é: existe uma forma de adotar práticas de crowdsourcing sem que haja uma diminuição no valor pago aos trabalhadores?

Não surpreendentemente, a resposta é complexa. Grande parte das empresas que adotam força de trabalho dividida em crowdsourcing exploram um filão que é a captura do tempo ocioso de trabalhadores de outras atividades (por exemplo, um estudante com horas livres, ou uma dona de casa, ou mesmo um heavy user de Internet que não se incomode em ficar procurando vídeos sobre Jai Alai pela web. Contudo, há também indústrias que aproveitam para buscar mão-de-obra em países menos desenvolvidos para chegar a cortes de custos próximos dos 70%. Ainda que se possa argumentar que os valores pagos a trabalhadores em países pobres são uma forma de redistribuição de riqueza para sociedades menos desenvolvidas , o “cheiro” de arrocho salarial permanece.Crowdsourcing

Além de ser mais fácil encontrar trabalhadores dispostos a receber menos em países mais pobres, há um outro fator importante. Os patrões tendem a ver o trabalho remoto como “mais fácil”. O apego da maioria das empresas pela presença física dos funcionários é um pouco irracional, ainda que explicável. A presença dos funcionários na empresa é uma cultura fortíssima, de quase três séculos, que remonta à Revolução Industrial, quando os trabalhadores só podiam gerar lucro se estivessem fisicamente próximos ao maquinário. A digitalização não “somente” revolucionou o quadro, mas basicamente o desmanchou. Grandes parcelas da força de trabalho poderiam fazer todo seu trabalho a partir de casa, economizando centenas de bilhões de dólares em transporte, energia, investimento em equipamento e afins. O patrão normalmente vê a permanência em casa do funcionário como uma vantagem dele (funcionário) e não da empresa, quando na verdade é um ganho bilateral. Com causas ou não, o ponto é que o mesmo trabalho está sendo pior remunerado na maioria dos casos, e isso é um problema (mesmo que esse seja um problema que vai muito além da disseminação do crowdsourcing).

Onde ficam as esperanças para que essa desvalorização seja menos acentuada? Primeiro, em algum momento no futuro, deve começar a haver legislação nos países para regular esse fluxo de capitais e isso de algum modo tende a frear o ímpeto de quem quer somente mão-de-obra mais barata; segundo, ferramentas mais eficientes para a gestão de tarefas deve tornar a relação mais azeitada, com cada tarefa levando menos tempo; terceiro, as tarefas solicitadas através do sistema tendem a ficar mais sofisticadas conforme cada um dos fornecedores de trabalho se demonstre mais confiável, e essa sofisticação também tende a render pagamentos melhores. De qualquer maneira, mesmo assim, a globalização extrema que o crowdsourcing pode trazer ao capitalismo ainda representa – pelo menos em termos de salários – um peso a mais no desequilíbrio das relações.

De qualquer modo, essa descentralização do trabalho é inevitável assim como o processo de migração industrial que veio após a globalização. Logo, não se trata de querer ou não, e sim, de precisar encontrar soluções. Essa descentralização é extremamente necessária, especialmente em megalópoles como São Paulo (imagine se, por exemplo, 30% do fluxo de pessoas na cidade deixasse de acontecer sem os deslocamentos necessários para as pessoas irem aos escritórios). Criar tempo livre para as pessoas (como sugere Domenico De Masi) e cortar custos para as empresas são benefícios que o crowdsourcing pode aportar. Conter a queda do valor do trabalho ainda não tem uma resposta óbvia. Essa resposta só pode vir junto com um novo contrato social, necessário para se rediscutir a distribuição de riqueza, diminuição do consumo dos recursos naturais, que será celebrado por bem ou á força, uma vez que o atual ritmo de utilização dos recursos naturais deve levar a humanidade ao risco de extinção antes do que se imagina. Essa redução no consumo dos recursos também pode ser ajudada pelo crowdsourcing. Que uma coisa leve à outra, então.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.