Revolução digital indica mudanças sociais profundas à vista

Não há nenhum setor da sociedade que não tenha sido atingido intensamente pela revolução digital. A discussão sobre seus efeitos é muito mais intensa e frequente quando os aspectos econômicos são o assunto , porque afinal, é o dinheiro que sempre faz as manchetes. Contudo, a digitalização é uma alteração profunda no modo pelo qual nos comunicamos. Excetuando a tradição oral, pela primeira vez desde o tempo das cavernas, o homem estabeleceu um código comunicativo que não tem uma representação física (código comunicativo escrito, bem-entendido, porque transmissões via rádio já tinham feito isso antes com voz e imagens) – na virtualidade , todos os conteúdos dependem de uma decodificação eletrônica dos conteúdos transformados em bits para se tornarem compreensíveis para os receptores humanos. Quando escrevemos no teclado, nenhum dos conteúdos que escrevemos vai para uma rocha, pergaminho, ou papel. Não existem rastros físicos, visíveis a olho nu, da nossa escrita – apenas códigos eletrônicos. Essa mudança nos paradigmas comunicacionais é revolucionária e revoluções na comunicação, historicamente, levam a mudanças sociais profundas.

Uma observação: por que evitei o uso da palavra “revolução”? Porque a palavra “revolução” carrega uma pecha ideológica grande e não são poucos os escritores e pensadores que a utilizaram levianamente, na ânsia de acusar alguma mudança histórica repentina e, quase que sempre, as revoluções não têm nada de repentinas, sendo construídas muito lentamente, com a sobreposição de ínfimas camadas que passam despercebidas até que constituam uma mudança mais radical.

James Beniger diz que o processamento de informação e a comunicação são componentes indispensáveis da função de controle da sociedade e que estes componentes estão diretamente ligados ao desenvolvimento das tecnologias de informação. No desenvolvimento da sociedade, evoluções tecnológicas profundas, quando se consolidam, redesenham o que aquela sociedade tem capacidade de fazer, redefinem a extensão dos seus limites. E aí, começam os processos que vão levar a um clímax que normalmente as pessoas identificam como “a revolução”. Na história da comunicação, os desenvolvimentos que mudaram os paradigmas iniciaram processos de mudança da mesma forma que a lenta movimentação das placas tectônicas eclodem em terremotos. A consolidação da mídia digital como forma de comunicação é um desses desenvolvimentos e as mudanças sociais (como a Primavera Árabe), de comportamento (novas linguagens para utilização em messengers e mensagens de texto), econômicas (explosão do e-commerce e publicidade digital e evolução do data mining) e humanos (alteração das formas de relacionamento entre indivíduos) são sinais claros disso.

Esse é o cenário onde o jornalismo atual se encontra, um pano de fundo em mudança profunda. Não é o jornalismo que mudou, mas a sociedade – e muito. É nessa profundidade que o jornalismo precisa aprender a lidar se quiser de fato acompanhar o passo dos tempos. Pensar em mudar as embalagens de um produto que já e fazia até aqui é mais do que ingênuo, é pouco inteligente e inadequado, para se dizer o mínimo. Fundações já estabelecidas servem para setores já estabelecidos. Este – a comunicação digital – ainda é um bebê em seus primeiros passos, que certamente levará a mudanças sociais ainda mais radicais, inimagináveis e imprevisíveis (e infelizmente, não necessariamente positivas). Tecnologias anteriores tendem a ficar restritas a nichos após um dado um espaço de tempo e certamente não atenderão as demandas da sociedade de um futuro próximo, que também precisa a lidar com a mudança de paradigma. Quanto mais tempo se perder para aceitar e incorporar a nova realidade, pior – tanto para o jornalismo quanto para a sociedade.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.