O IPO do Facebook e a crônica de uma morte anunciada

O maior e mais aguardado IPO da história da indústria de tecnologia finalmente aconteceu e não foi apenas frustrante. Apesar do título ter encerrado o primeiro dia de pregão na NASDAQ com o valor inalterado, os acionistas que se apressaram nas compras da sexta-feira de lançamento descobririam que eram felizes e não sabiam quando o título fechou a semana seguinte com uma redução de quase US$6 em relação sos U$38 iniciais. Menos contentes ainda ficaram quando descobriram que os bancos encarregados pelo Facebook para oferecer as ações ao mercado tinham tido informações privilegiadas em relação ao faturamento do titã social no segundo trimestre e esses bancos decidiram comprar menos ações para si, mas mantiveram o montante destinado a clientes. Problemas de lisura na oferta das ações à parte (o banco Morgan Stanley sozinho teria faturado quase meio bilhão de dólares com a queda do valor dos papeis do Facebook), a constatação da hiperinflação do valor da empresa estava claro há muitas semanas. Mas nem todo mundo quis ver.

Ainda no início deste mês, o Wall Street Journal fez uma matéria muito precisa sobre um burburinho que corria no mercado em relação ao valor anunciado de lançamento do Facebook, cerca de US$104 bilhões. O artigo mostrava como o site obtinha um valor muito pequeno de receita por usuário por dia e como o valor continua a cair, algo compensado pela quantidade astronômica de visualizações que a rede gera. Mais do que isso, sugeria que para ter a avaliação da centena de bilhão de dólares, precisaria ter um crescimento de receita numa ordem de 41% ao ano durante cinco anos – crescimento esse que baixou no último trimestre de 2011, subiu no primeiro trimestre deste ano e, ao que tudo indica, não terá o desempenho desejado neste trimestre. Para encorajar investidores, o próprio Mark Zuckerberg saiu em um roadshow para investidores para mostrar como a máquina que fatura US$3 bilhões anuais teria o crescimento necessário para alcançar o valor de capitalização anunciado.

Hoje, na segunda semana após a oferta inicial de ações, os títulos do Facebook continuam caindo, batendo U$31,91 na manhã desta segunda-feira. A distorção fica mais chocante quando números são postos na equação. Uma consultoria afiliada à Reuters fez uma projeção conservadora para o crescimento da receita do FB de cerca de 10% ao ano, o que estimaria o valor justo dos papeis da empresa no IPO para US$9,59, aproximadamente 70% a menos do que o valor pelo qual elas foram oferecidas aos investidores. Não à toa, inúmeros investidores já abriram processos contra o Facebook e os bancos envolvidos. Sim, eles foram vigorosamente esfolados enquanto clientes, ou muppets, apelido dado aos clientes na Goldman Sachs, segundo revelação de um ex-analista. Visitando fóruns com especialistas no assunto, é nítida a impressão de que houve má-fé, num episódio que lembrou muito o filme Margin Call, filme que retrata a perversidade de Wall Street.

As notícias posteriores ao IPO não são animadoras. Como escrevi há cerca de duas semanas, o potencial de aumento de receita do Facebook depende fortemente da legislação relacionada com a privacidade do usuário e este promete ser um terreno pedregoso, com o próprio Google tendo dificuldades em convencer a União Europeia de que não abusa de sua posição para monopolizar o mercado e também com a entrada em campo da nova lei europeia de cookies. Além disso, o Facebok precisa de  melhoras tão expressivas no terreno de  aplicativos para acesso via celular (já responsável por 20% do tráfego nos EUA) que até fez uma alteração  no texto de sua oferta inicial de ações se desobrigando de conseguir resultados excepcionais neste setor.

Aí vem a pergunta: como foi possível, então, que a maioria esmagadora da mídia de tecnologia se demonstrasse tão entusiasmada com a entrada do Facebook na Bolsa de Valores? Que a rede social é um negócio espetacular, ok (não é o caso de dizer que se trata de uma  grande falácia, como alguns blogueiros fizeram), pois se trata de uma empresa de faturamento bilionário, mas apostar num valor de mercado de US$100 bi só foi interessante para Zuckerberg, os bancos e os outros sócios majoritários. Os investidores em geral fizeram mesmo papel de muppets.

O episódio já está sendo apontado como o início do fim da segunda  bolha de tecnologia. Pode parecer exagero, mas o fato é que investidores menores vão pensar mais antes de colocar dinheiro novamente em start-ups com avaliações zilionárias (pense no Pinterest valendo US$1 bilhão em menos de um ano após o lançamento). A mídia especializada em tecnologia fica cada vez menos confiável, haja visto a falta de restrições que colocou ao IPO. Sim, o Facebook tem potenciais gigantes de crescimento, como entrando no mercado de produção de mídia,  ou fazendo aquisições como o Instagram ou a provável compra do navegador Opera e não é  injusto acusar do Facebook de ter, sozinho, induzido os clientes a rasgar dinheiro comprando ações ultravalorizadas. Como o personagem Will Emerson (Paul Bettany) diz em Margin Call, a ciranda financeira tem os dedos dos corretores fazendo coisas para investidores lucrarem. “As pessoas querem viver em casas e carros que não podem comprar“, diz Emerson. Por isso, acabam acreditando no canto da sereia. Se acreditam, têm de ter sua parcela de culpa.

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