Não é mau jornalismo, é uma sociedade doente

No último final de semana, um vídeo viralizou no YouTube. Uma garota com um microfone aparecia entrevistando um acusado de estupro (aliás, acusação quea própria empunhadora de microfone endossava). O vídeo é asqueroso. Ele , teoricamente, seria um retrato do jornalismo mais podre, doentio, oportunista, cruel e vigarista possível – uma espécie de sub-Ratinho dos piores tempos. Só que não dá para chamar isso de jornalismo (o programa Brasil Urgente, da TV Band) nem a menina de jornalista (chama-se Mirella Cunha, que tem passado os últimos dias se defendendo no Twitter). Tanto o programa asqueroso quanto a primitiva Cunha são sintomas de uma sociedade doente, filha da escravidão com a vagabundagem cortesã.

Primeiro, um olhar sobre a menina. A moça é tão bonita quanto pouco inteligente. Não, talvez não seja tão bonita, mas ainda assim, atende à única exigência para se trabalhar na TV – o visual. Na entrevista com o acusado de estupro, um rapaz negro chamado Paulo, ele o humilha, pressiona e assedia para tentar conseguir uma declaração que renda uma manchete no nauseante programa policial da Band, Brasil Urgente. O modus operandi é o mesmo de sempre: agredir o preso para que ele revide (que assistiu o webhit do Morre Diabo vai lembrar de como o repórter chega – só que naquele caso, o acusado intimida os jornalistas). Mirella não revelou só que é racista, cruel e completamente despreparada até mesmo para varrer o chão de uma redação. Ela demonstra um prazer em humilhar o acusado que, na sua ignorância e medo, chora, e se diz disposto a fazer um exame “de próstata” (claramente se referia a um exame de corpo de delito) para provar que não tentou estuprar ninguém. A funcionária da Band segue forçando o entrevistado a falar “exame de próstata” para reforçar o erro. Enquanto isso, ninguém do patético aparato policial baiano, que meses atrás largou a população na mão para conseguir um reajuste salarial à força tenta evitar a humilhação do preso sob sua custódia.

Depois, o programa. O policial da Band é a epítome do que há de mais repulsivo na mídia. Não, não é jornalismo. É um uso nocivo de uma concessão para arrebanhar audiência e amedrontar a população (estudos mostram que em vários países, os níveis de segurança pública melhoram enquanto a sensação de insegurança da população aumenta, graças a lixos como o Brasil Urgente). Seu apresentador, Uziel Bueno, faz o estilo de Fortunato, o personagem demagogo de Tropa de Elite 2, representado pelo ator André Mattos (e supostamente baseado em Wagner Montes) que também explora a miséria policial e cria bordões de efeito que só funcionam c om camadas muito simplórias da população. Bueno tomou partido da colega de trabalho no Twitter, fronte no qual, a própria funcionária da Band se defende, retweetando as mensagens de apoio de uma série de imbecis que endossaram o acinte que ela cometeu.

A reação da Internet foi grande, mas suave em função do abuso. A nota da emissora de repúdio foi leve diante do incidente, provavelmente porque o programa rende bons índices de audiência. Mas também porque não há repulsa sistêmica da sociedade. Essa moça não é jornalista (provavelmente tem um diploma, o que prova que o ensino de jornalismo no Brasil é tão doente quanto o resto da sociedade) nem a Band faz jornalismo quando manda ao ar a escória policialesca do começo de noite. O que se faz ali é o julgamento, condenação e linchamento de pessoas. Mirella, Bueno e a Band não conhecem os limites da lei, quanto mais a ética de uma profissão que pode ser nobre e que está sequestrada nas mãos de vendedores, que farão qualquer negócio em troca de dinheiro. O discurso do programa me recorda o tipo de discurso de países à beira de extermínios raciais, como a Radio Télévision Libre des Mille Collines, em Ruanda ou o infame Der Stürmer, jornal antissemita criado por Julius Streicher e que contaminou a Alemanha e a Áustria com o discurso dos ideólogos racistas do NSDAP nazista.

Antes que algum primata argumente que se trata da defesa de um estuprador ou de outros criminosos, cabe lembrar que a TV e a praça pública não são espaços para julgamentos. Em países mais civilizados, procedimentos judiciais, uma vez iniciados, não podem ser mencionados na mídia por uma questão de proteção – não ao acusado, mas à lisura do processo. Em qualquer país, civilizado, essa menina estaria, juntamente com seu apresentador, na cadeia e respondendo a processo, assim como está o acusado de estupro (que, igualmente merece todo o rigor do mundo, uma vez que comprovada sua culpa). Contudo, estamos no Brasil, uma sociedade mais que individualista e o comportamento da garota não choca a maioria porque faz parte do seu próprio raciocínio. Escórias pseudojornalísticas, pedestais de microfone bonitinhos e demagogos têm vida fácil. E nós continuamos vivendo cada vez pior.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.