IPO do Facebook é batalha por corações e mentes

A entrada na Bolsa mais esperada da história deve acontecer nove dias depois desta postagem. O Facebook, empresa que tem cerca de 15% dos terráqueos como seus usuários, oferecerá suas ações numa cotação que fazem seu valor de mercado chegar próximo dos US$100 bilhões, o que a colocaria à frente de colossos como McDonalds, Visa, Unilever e Siemens. Um episódio que mexe com valores dessas dimensões deveria gerar avaliações absolutamente frias e calculistas. Contudo, o assunto tornou-se uma batalha tão apaixonada quanto uma discussão sobre futebol, com pouquíssimos observadores vendo a questão sem tomar partido como entusiastas ou detratores. Nos corações e mentes, o Facebook já está na Bolsa.

A ideia de que uma companhia que tem menos de dez anos e pouco mais de 3 mil funcionários possa valer tanto dinheiro e figurar entre as 100 maiores companhias do mundo desafia a imaginação. O grande problema é que atualmente, a realidade desafia a imaginação. O Facebook tem uma capacidade assustadora de prospectar dados sobre as pessoas (cuja tradução de mercado é “consumidores”) inédita e cujo potencial é impossível de definir. As perguntas que deveriam guiar a decisão de compra de um potencial acionista são:

1) qual a capacidade do Facebook de continuar aumentando sua receita?
2) qual a curva do crescimento de sua base de usuários?
3) qual o real potencial da ferramenta de extrair dados comportamentais desses usuários?
4) quais os riscos legais (como a invasão de privacidade realizada pela ferramenta) podem ameaçar o negócio?

Claro, como o leitor deve imaginar, estas questões têm uma quantidade de variáveis tão absurda que os “especialistas” que se dispõem a responde-las  ou detém poderes sobrenaturais ou estão chutando (e, claro, milhares de consultorias estão enchendo o bolso de dinheiro com pouco mais do que chutes). O negócio de investimento em um IPO (acrônimo de “oferta pública inicial”) é sempre arriscado e quando se trata de uma empresa que não tem precedentes num mercado sem precedentes e numa época cujo desenvolvimento tecnológico não tem precedentes, o risco é quase insano – tão insana quanto a quantia de dinheiro que o IPO vai movimentar.

Nessa incerteza absoluta, os oferecedores de segurança brotam aos borbotões, com analistas que dizem que comprar acões do Facebook é uma barbada quanto artigos que questionam a eficiência final dos produtos que o Facebook vende com a informação que arranca de seus usuários incautos até análises quase factuais sobre o crescimento da receita da empresa (crescimento esse que vem caindo, mas que para justificar o valor de uma centena de bilhões de dólares, precisaria aumentar sua receita a taxas astronômicas por cerca de uma década).

A realidade é que a empresa de Mark Zuckerberg se assemelha muito aos primeiros protótipos da Nasa na corrida espacial. Os melhores físicos, matemáticos e cientistas diversos faziam seus projetos com o máximo de dedicação, mas entravam numa seara desconhecida quando planejavam os primeiros foguetes. Apesar de tanta ciência e cautela, alguns protótipos chegaram ao espaço mas não sem que outros se esfarelassem. O desafio do Facebook é o de convencer mais e mais investidores de que podem  ter em mãos uma companhia que é a mais forte candidata a sem a primeira corporação privada com influência concreta globalmente em esferas que antes somente os governos dos países tinham vez (a Primavera Árabe é um exemplo de como a rede social pode ser determinante e não por acaso, príncipes árabes investiram US$300 milhões no Twitter). Não há companhia realmente competindo com o FB nessa escala (não, nem o Google+) e isso pode sem dúvida vir a ser, suplantados todos os riscos, um negócio épico.

Na batalha por corações e mentes, entram em cena muitos click whores, ou “mouses de aluguel” (personagens que abordei num outro post). Apesar de muito jovem, a indústria da tecnologia já é tão ou mais viciada do que qualquer outra. Faça uma busca com a questão sobre se o Facebook é um bom investimento e você verá que há mais click whores disponíveis do que se imagina. A bem da verdade, sem o apoio desse personagem, não há empresa que consiga sobreviver e muito menos fazer a melhor capitalização possível num IPO. E além do risco de opiniões com segundas intenções há na cobertura do assunto uma espécie de desespero dos opinionistas para se consagrar como os  profetas que dirão se o negócio é bom ou não. E diga-se: 90% da cobertura é favorável ao IPO, a ponto de , mesmo numa empresa pública como a PBS americana, numa enquete sobre o que se acha que acontecerá com a oferta inicial de acões, todas as opções disponíveis são, de certa forma, positivas (nenhuma delas abre margem para a possibilidade do IPO ser um mau negócio).

E o Facebook é ou não um bom negócio? A pergunta correta neste caso é: para quem o IPO do Facebook é um bom negócio? Certamente o será para Mark Zuckerberg e outros sócios da companhia. Como investimento puro, para uma velhinha aposentada do Alabama, é  pouco provável; para os grandes grupos de mídia, certamente há ganhos espetaculares possíveis; para os tubarões de Wall Street, no curto prazo, quase certamente sim, porque é certo que os títulos do Facebook terão valorizações astronômicas (pelo menos no curto prazo). Para a sociedade como um todo, há presságios preocupantes como o apoio da empresa a legislações perigosíssimas como a CISPA (algo que deixou a empresa sob olhares atravessados até mesmo de investidores potenciais) e sob um ponto de vista da sociedade, quanto mais poder houver na mão de cada vez menos e maiores corporações, pior. O ideal seria ter o Facebook com uma quantidade de acionistas grande o suficiente para ele representar cada vez mais a sociedade que ele cada vez mais retrata, mas essa definitivamente é a antítese de Wall Street.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.