Imprensa abandonou suas funções há tempos e digital pode ajudar a retomá-las

“Is journalism dead?” A pergunta foi feita à comunidade do site Quora (e na realidade, em milhares de outros locais, não só registrados na Internet, mas em rodas de jornalistas, congressos, debates, redações e afins). Não é uma dúvida impertinente. Basta uma olhada rápida nas capas das revistas em qualquer banca, onde revistas semanais de notícias se entregam sem nenhum constrangimento às matérias mais frívolas, para se ter certeza de que jornalismo certamente não é o que a maioria esmagadora delas faz. Mesmo nos títulos de jornais mais tradicionais, herdeiros de uma longa tradição jornalística, a sedução de entregar o que “os leitores querem ler” é mais forte do que uma suposta obrigação de fazer jornalismo. A pergunta sobre se a Internet matou (ou está matando) o jornalismo raramente é respondida pelos donos de companhias noticiosas e jornalistas tradicionalistas com um “não”. Contudo, a verdade é que a Internet ( e a revolução digital) não tem nada a ver com o desaparecimento do jornalismo como ele deveria ser – este vem desaparecendo há décadas. O digital, pelo contrário, é uma ferramenta que tem a faca e o queijo na mão para recuperar as obrigações que foram deixadas dormentes pela mídia tradicional.

No questionamento sobre a morte ou não do jornalismo vem embutida uma suposta ameaça sobre a sociedade, um risco que a mesma estaria correndo se não tivesse uma imprensa forte zelando pelo “interesse público”. Infelizmente, para a sociedade e para as empresas tradicionais de mídia, o zelo pelo “interesse público” por parte das últimas já se perdeu há bastante tempo. Como observa Denis McQuail em seu Mass Communications Theory (entre tantos outros), a definição de “interesse público” é extremamente  complexa e além disso, mesmo quando possível de definir, o interesse público jamais suplanta os interesses da própria empresa em termos de prioridades, sejam eles políticos ou – quase sempre – financeiros. Não é difícil lembrar de situações nas quais a imprensa claramente advogou em causa própria em detrimento do que seria melhor para a sociedade. Os formatos tradicionais de mídia – impresso, rádio e TV – criaram uma zona de conforto para a mídia por causa da concentração de poder na mão de poucos grupos e esses puderam sempre agir em função dos próprios interesses.

O avanço do formato digital é acusado de estar matando o jornalismo e levando a imprensa para longe de suas funções. Será? Uma definição comumente aceita das funções da imprensa foi cunhada ainda em 1948, por Harold Lasswell, em seu ensaio “The Structure and Function of Communication in Society“. Entre elas, estão a indicação das relações de poder, a facilitação da inovação e progresso,  a explicação e interpretação do sentido dos eventos e da informação e a redução da tensão social. Mais uma vez, é simples pensar em noticiários que tenham manipulado informações de eleições, programas policiais que incutam medo desnecessário na população e empresas que defendam contratos milionários do governo que tenham elas mesmas como beneficiárias – nada disso parece defesa do “interesse público”. Nada disso apareceu com o surgimento da mídia digital, mas sim, com uma busca por audiência unica e exclusivamente determinada pela agenda da indústria de notícias. A imprensa se distanciou de sua obrigação pela consciência do poder que tinha para poder ter o próprio lucro como finalidade. A sociedade e seu “interesse público” passaram a ser reféns dessa imprensa, mesmo ela sendo a concessionária de certos recursos (como concessões de redes de TV) que criaram o “quarto poder“.

A revolução digital tirou das grandes corporações o monopólio sobre a capacidade de poder fazer jornalismo. Entidades como o ProPublica ou mesmo as versões digitais das redações como o The Guardian ou o New York Times deixaram claro que o jornalismo na era digital pode ter um custo muito mais acessível. Iniciativas como o Huffington Post (que, sim suscita muitos questionamentos sobre a qualidade e o direcionamento de seu jornalismo, mas tem méritos de um modo ou de outro), TechCrunchMashablePolitico e, para citar um exemplo brasileiro, o Blog do Noblat, estão redesenhando a geografia das notícias em localidades muito mais próximas das funções da imprensa citadas por Lasswell do que nos títulos quatrocentões que literalmente vendem as suas capas para qualquer assunto que garanta uma venda um pouco maior. Isso, quando não têm uma agenda política visivelmente ligada aos próprios interesses e completamente divorciada do “interesse público”, ainda que tentem fazer tal defesa com uma desfaçatez admirável.

O jornalismo, que não está morto, pode tranquilamente sair de seu torpor com as ferramentas que a revolução digital propõe cada dia mais, mas não é nem um pouco certo que se possa salvar as grandes corporações, jurássicas em sua essência e avessas a inovações, com a participação de entidades menores, mais focadas, mais ágeis e rentáveis. As corporações tradicionais de notícias nem são o berço onde se criou o jornalismo e não são os bastiões de guerrilha que lutam por ele contra os inimigos da sociedade – muito longe disso. Ver a grande mídia fazendo um discurso culpando o digital pela “morte” do jornalismo é uma mistura de estrabismo egocêntrico com má-fé. Em sociedades de democracia forte, essa balela não cola. Ou pelo menos, não poderia colar.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.