De-massificação da mídia deu um nó na cabeça da imprensa

Durante o século XX, a mídia de massas atingiu seu ponto máximo. Por causa de restrições tecnológicas e regulamentação, a imprensa de uma maneira geral era quase que totalmente controlada pelo governo ou próxima dele. Somente em países nos quais as instituições eram mais fortes e a democracia mais consolidada, havia uma imprensa realmente determinada a contestar medidas governamentais. E mesmo assim, sempre em grandes corporações. Para esses grupos, a receita sempre foi simples: abordar sempre os assuntos que supostamente despertavam maior interesse, que falassem de assuntos geograficamente mais próximos e se relacionassem com a população daquele lugar (para citar um malfadado exemplo: no Brasil, um acidente aéreo só desperta interesse se houvessem brasileiros a bordo). Esse quadro não existe mais. O fim da distância e a revolução tecnológica pulverizaram focos de interesse e tornaram situações longínquas tão vizinhas quanto a esquina logo ali. E essa mudança deixou a mídia esquizofrênica. 

Desde o início, as perguntas que o jornalista se fazia eram : o que noticiar?  Por que?  Para quem? De que maneira? Tudo isso era relativamente simples de definir quando duas das variáveis eram estáticas – sua audiência e o suporte pelo qual você falava (TV, rádio, impresso, etc). Só que uma vez que essas variáveis passaram a ser múltiplas, todo o resto do processo a ser incerto. Hoje, sua audiência não está mais só na sua cidade, mas espalhada pelo mundo; seu leitor/espectador, pode estar recebendo sua informação na TV, computador, notebook, celular, tablet ou mídias sociais. Para complicar tudo, quem paga sua conta – os anunciantes – também migraram e querem acompanhar a antiga audiência, que era calma e estável como uma vaca em um curral.

Os modelos de poder de mídia foram desmanchados pela enxurrada digital. Estamos passando de um processo onde o poder, antes controlado unica e exclusivamente por uma elite extremamente concentrada e imutável para um grupo ainda longe da democracia utópica, mas que tem representação de mais setores do que o baronato da mídia e suas conexões políticas e é perigosamente dinâmico, com líderes que podem sucumbir em poucos anos (vide, por exemplo, o MySpace). Ainda há uma concentração desigual de poder (basta ver que a mídia digital global hoje responde a quatro titãs – Amazon, Apple, Google e Facebook) que têm um poder infinitamente maior do que o restante. Esse é um processo longo, mas que tirou a homogeneidade, seja do conteúdo, antes estático e feito para atingir de algum modo o maior número de pessoas (que não podiam ter nenhuma interação no processo de comunicação) para um novo cenário em que uma audiência pulverizada exige conteúdo específico e interage ativamente, simplesmente abandonando os players que insistem em não escutar. A imprensa (e a mídia em geral) cada vez mais deixa seu aspecto uniforme para se transformar em um universo disforme e à vezes, conflituoso, com mudanças positivas e negativas.

Vestígios do dilema que atinge a mídia são simples de se ver. Redações de grandes jornais ainda não sabem trabalhar com essa nova diversidade porque na maioria dos casos não têm ferramentas para isso. A ampliação da audiência potencial demanda um crescimento na quantidade da produção de conteúdo que as empresas de mídia não têm como atender a não ser através do uso de material de agências que perdeu eficiência por duas razões: mesmo sendo de qualidade como no caso de Reuters e Associated Press, é mais genérico do que essa “nova audiência” quer (porque ela sabe que não precisa mais ler o que é oferecido e sim aquilo que ela quer mesmo) e também porque esse material é uma commodity oferecida por inúmeros outros concorrentes. Ao novo público, precisa ser oferecido um conteúdo mais personalizado, cuja produção tem de obrigatoriamente vir de mais fontes, um cenário que sugere o crescimento sistemático da produção colaborativa, ou crowdsourced, onde o usuário passa cada vez mais a fazer parte da produção, aumentando a pluralidade da equação.

A parte mais difícil é uma alteração cultural. Convencer os profissionais de mídia de que a mudança das características da audiência e a consequente necessidade de alteração dos modos de produção, aliada ao tsunami tecnológico implicam em mudanças drásticas (ainda que não necessariamente imediatas) para acompanhar as necessidades da sociedade. Poucas ou nenhuma indústria foi tão afetada quanto a de mídia pela tecnologia nos últimos 15 anos. Paradoxalmente, essa é a indústria que mais tem dificuldade em se adaptar.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.