Jornalismo ganhou ferramentas e riscos com a tecnologia

O jornalismo foi posto em xeque pela tecnologia. Essa frase faz os jornalistas da velha guarda ficarem em algum ponto entre incomodados e apopléticos. Mas foi. Só que não da maneira que usualmente se pinta este cenário, onde a tecnologia permitiu que todo mundo conseguisse construir a sua opinião gransformando a informação em algo democrático. A ameaça da tecnologia ao jornalismo está no desmonte do conceito do jornalismo, onde o empowerment do blogueiro se subverteu e criou um personagem que coloca o próprio lucro à frente da sua função natural, a de informar os fatos como eles são e fazer as reflexões que quiser, desde que esclarecidas as suas intenções. Nasceu o clickwhore.

TechCrunch founder Michael Arrington (Photo credit: Wikipedia)

Eu adoraria dizer que a expressão é minha, mas não é. Ouvi-a pela primeira vez num artigo do excelente Andy Lyons,
editor de tecnologia da revista Newsweek, onde ele faz um claro desenho de como os bloggers “independentes” de tecnologia como Michael Arrington (ex-TechCrunch) e SV Siegler atacam virulentamente jornalistas que criticam projetos nos quais os próprios têm interesses (isso mesmo, dinheiro). Lyons conta como funciona todo um esquema para que os “jornalistas” comam a sua fatia dos oceanos de dinheiro que estão nascendo na bolha de Silicon Valley (a consolidação digital não é uma bolha; a propagação de negócios em tecnologia como ocorre hoje é) e os venture capitalists detentores das startups mais quentes do momento pagam, porque investir algumas centenas de milhares de dólares para não ter o TechCrunch falando mal de você vale a pena, e ademais, para as cifras que esses VCs giram, é dinheiro de pinga.

Para falar de uma coqueluche virtual, o Pinterest. Com algumas dezenas de meses de existência, o Pinterest só tem sua exponencial taxa de crescimento (mais de 100 milhões de usuarios em pouco mais de dois anos) pela quantidade de exposição que ele ganha na mídia especializada. Só no Mashable, um dos sites mais famosos de tecnologia no mundo, 127 matérias tinham sido publicadas no momento em que esse post era escrito, num espaço de pouco mais de um ano. Com tanta exposição e crescimento (e um ajudando a bombar o outro), o Pinterest já levantou mais de US$40 milhões de 16 investidores, que, por sua vez, têm interesses (participações) em centenas de outros produtos e dezenas de “amigos” nos grandes formadores de opinião nesse nicho, que são exatamente os clickwhores aos quais Andy Lyons se referia. Não sei se o Mashable ou seu fundador Pete Cashmore, têm alguma relação com o Pinterest (pesquisei bastante e não achei nada), mas sinceramente fico com um pé atrás.

A prática do jornalismo se beneficiou imensamente das novas possibilidades da tecnologia (ainda que a maioria das grandes empresas não tenha agilidade nem visão para conseguir tirar proveito delas). Contudo, não são só rosas. Os blogueiros começaram a produzir conteúdo, na década passada, com a gana de quem queria publicar para o mundo o que o establishment não queria que ninguém visse – a informação sem o viés dos grandes grupos econômicos ou políticos. Só que conforme viram aumentar sua influência, viram também aumentar as seduções dos poderes econômicos que eles estavam dispostos a se opor. E hoje, não são mais independentes do que absolutamente nenhum grande conglomerado de mídia. Não à toa o AllThingsDigital pertence ao New York Times,  o TechCrunch é da AOL e supostamente a CNN estaria para comprar o Mashable. A compra não é pelo lucro – mas pela influência numa indústria que está girando quantias obscenas de dinheiro com uma facilidade incrível.

Em toda a história da humanidade, a tecnologia se prova tão boa ou má quanto os usos que se fazem dela. É verdade para a indústria, energia nuclear ou para a conversão da revolução digital. Bloggers independentes podem até existir, mas eles estão ficando cada vez mais raros, conforme suas influências crescem. Raramente, como argumentou Lyons no seu post, os interesses de um determinado blogueiro ficam explícitos. Por exemplo, a AllThingsDigital Kara Swisher, coloca em sua “declaração de ética” que ela é casada com uma executiva do Google, mas essa atitude é raríssima (e mesmo nesse caso, nada garante que todos os seus interesses estejam ali expostos). Ainda há uma ferramenta, contudo, da qual o leitor pode se aproveitar para se assegurar que está lendo textos transparentes, que é cruzar informações de fontes com diferentes opiniões. É mais uma ferramenta que a tecnologia deixou tarefa que foi incrivelmente facilitada pela tecnologia. Se vai se usá-la bem ou não, é outra história.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.