Falência generalizada do impresso não precisa significar morte do jornal

O gráfico abaixo foi publicado pelo site The Atlantic. Estas curvas são as formas geométricas que mais aterrorizam os senhores no comando das empresas jornalísticas nascidas no impresso (em sua grande maioria, do século XIX em diante). Não há muito como contraargumentar a favor da manutenção da publicidade impressa ao ver estes gráficos e na verdade, ele se parece muito com uma certidão de óbito da maioria esmagadora dos jornais e de uma quantidade grande de revistas. Mas não é. Trata-se de um alerta. Ainda há tempo para quem quiser se salvar.

A leitura do gráfico mostra que a publicidade em impresso cresceu até o digital começar a varrer um mundo da entrega de informação. A consolidação desse quadro não se deu antes por causa da explosão da primeira bolha da Internet no começo da década passada (“primeira”, porque deve haver uma segunda). Por uma série de circunstâncias (custo de impressão, distribuição, mudança no ciclo de produção de notícias, mudança de comportamento geracional, rigidez das estruturas das empresas jornalísticas, etc), o meio impresso perdeu em eficiência enquanto suporte e o jornal em papel vai sumir (há estimativas sérias dando conta de que até 2020 não haverá mais jornal em papel enquanto meio de comunicação em massa, restando apenas como suporte para atividades nichadas ou vintage (para usar uma palavra bem pedante).

Contudo, o segundo gráfico publicado pelo The Atlantic traz uma informação que é praticamente uma boia de salva-vidas para as empresas que consigam quebrar a própria rigidez para refazer suas estruturas e repensar tanto o ciclo noticioso quanto seu próprio meio-ambiente. O único jornal que conseguiu manter a sua base de assinaturas  – e na verdade, ampliá-la – foi o jornal que passou a considerar assinantes digitais e impressos juntamente, o Wall Street Journal. Todos os outros perderam assinantes de maneira catastrófica.

A boa notícia para os jornais aqui é que sim, é possível migrar as bases de leitores. A má notícia é que o processo tem de ser redesenhado de ponta a ponta. Não pode haver mais fechamento – as notícias ganham vida e precisam ter suites imediatas; deixa de existir a redação online e a redação do jornal – tudo TEM de funcionar junto para que nenhum dos dois canibalize o trabalho do outro; não pode existir “parte fechada” no jornal (significa dizer que parte de seu conteúdo é melhor e parte é pior; o modelo do Financial Times, onde heavy users são compelidos a pagar é muito mais inteligente); vídeo e áudio passam a ser indispensáveis, desde que como parte “pensada” da cobertura e não uma passagem tosca em cima de um off malfeito). Parece difícil uma empreitada do gênero, mas na verdade ela é quase impossível. Reverter determinadas culturas dentro de uma empresa é uma tarefa duríssima.

Mas a verdade é que não há opção. O suporte do papel passou a ser ultrapassado tecnologicamente, mas os golpes de morte no impresso são a mudança do ciclo de notícias de 24 horas e a eficiência muitíssimo maior do digital de rastrear o perfil dos leitores tornando os anúncios mais eficientes e mais caros.

O “mais caros”, naturalmente se refere ao anúncio unitário. Não há comparação entre o que podia custar a publicidade de massa impressa e o que custam os anúncios digitais, que tem um custo marginal muito menor e que pela maior eficiência permitem ao anunciante (desde que a agência zele pelo dinheiro desse anunciante) gastar menos dinheiro para um resultado maior. Assim, chega-se sem muita dificuldade, àquela que é a maior dificuldade de aceitação dos jornais: que eles não têm mais condição de ter as estrutura gigantescas de outrora. Operações jornalísticas de porte muito grande estarão limitadas a um grupo restritíssimo de empresas. Isso significa ter de demitir uma série de diretores e executivos com altos salários e que são muito bem relacionados. Esse corte é, tranquilamente o mais difícil de se fazer nessa transição e o que a torna mais improvável, mesmo que a alternativa seja o desaparecimento. Quem não quiser dar os aneis para manter os dedos, acabará perdendo ambos.

A máxima não é só para jornais, embora o declínio de publicidade para a TV, por exemplo, ainda seja mais lento e dê a esta mídia uma sobrevida bem maior. Mesmo assim, há emissoras que já tentam se preparar para evitar transtornos futuros. Empresas como a britânica ITV iniciaram lentamente a revolução. A ITV adequou sua redação para produzir material multimídia com sua rede de correspondentes em todo o Reino Unido, incluindo ferramentas de social mídia em seus planejamentos, refez contratos de distribuição e investiu na entrega de vídeo on demand (VOD), investiu dinheiro no aperfeiçoamento de seus players nativos de vídeo, na facilitação para pagamento de assinaturas ou compras digitais e novos planos de assinatura.

Grandes mudanças ambientais fazem vítimas em quantidade maciça e nem todos os indivíduos começam a pensar na própria sobrevivência ao mesmo tempo. A entrada do digital no meio de informação é uma mudança parecida ao acontecimento da última era glacial na Terra. A vida jamais esteve ameaçada, mas teve de se rearranjar de formas radicalmente diferentes. Hoje, na comunicação, apostar na tradição é o caminho mais curto para se transformar em item de museu e estofo de livros de história.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.