Jornalismo e pesquisa acadêmica raramente falam a mesma língua

Uma matéria de uma publicação sobre mídia sulafricana (que por sua vez tinha sido publicada anteriormente pela revista The Media) me recolocou diante de uma questão que etava dormente em mim: a da produção acadêmica na área. Tendo um mestrado completado e outro interrompido (por algumas das razões levantadas por parte dos entrevistados), voltei a pensar em como, de fato, a pesquisa acadêmica de mídia e jornalismo é dissociada da prática. Culpados? Sim, tanto nas redações, quanto na academia. Mas a sensação que eu tenho (e é confirmada pelos depoimentos de outros colegas de outros países (como os da matéria), me fazem crer que a produção acadêmica lembra uma estatal, onde a produção é para beneficiar a política interna da empresa e seus participantes. O mundo exterior que se dane.

Antes de ser classificado como um iconoclasta da produção acadêmica, uma observação: não estou dizendo que acho toda  a produção acadêmica em jornalismo e mídia ruim. Simplesmente acho (e pelas entrevistas dos colegas, não sou só eu) que, de um modo geral, a produção visa engrandecer o currículo do mestrando/doutorando e as estatísticas de pesquisa da instituição e muito raramente têm uma finalidade clara de resolver um problema, dilema ou dificuldade que se manifeste na prática da profissão. Há certamente muita produção de qualidade – que combina consistência com clareza – mas ela não é a regra.

Mesmo no caso das pesquisas valiosas e com um pé na realidade, o protocolo acadêmico, hoje, parece funcionar muito mais como uma espécie de “enigma” que só os “iniciados” compreendem do que verdadeiramente uma exigência de método. A densidade (e às vezes impossibilidade de se compreender) de um artigo, não raro, é motivo de orgulho intelectual. Contudo, como dizia um grande professor de lógica que me deu aula, “o professor que não consegue se fazer entender acha-se um gênio imperscrutável, mas trata-se de uma verdadeira besta”.  Raramente – até porque só tem capacidade de fazer isso o pesquisador realmente excelente – o artigo consegue reunir consistência, informação inédita e clareza (que, na pesquisa de comunicação, deveria ser uma obrigatoriedade).

Uma das causas desse distanciamento é o fato de que há poucos pesquisadores que trabalham com o dia a dia do jornalismo e poucos jornalistas que eventualmente dedicam-se a fazer pesquisas. A universidade é um refúgio de teóricos e o mercado um oceano de desconhecimento da teoria. Na medicina, por exemplo, essa dissociação é inimaginável (é possível pensar num médico de nível que se recuse a acompanhar quais as últimas conclusões da pesquisa científica?). No jornalismo, é a regra.

Os jornalistas de um modo geral também raramente se preocupam em ampliar a sua bagagem teórica. Não me lembro de ter ouvido de um colega de redação que ele estava lendo um livro sobre teoria da comunicação ou sobre impacto psicológico de vivência em territórios de guerra para jornalistas. Mas a culpa não é só dos jornalistas. Além de frequentemente hermética em si, a pesquisa acadêmica custa caro para se acessar. Sem estar estudando numa boa universidade, a única maneira de se acompanhar determinadas publicações científicas é pagando um dinheiro considerável e cujo retorno é bastante lento (para dizer o mínimo). Para dificultar, o modus operandi dos órgãos de informação não tem espaço para questionamentos éticos, filosóficos ou de método e nem considera estimular seus profissionais a buscarem tais recursos. O desinteresse fica claro quando a imprensa comete uma de suas atrocidades do tipo Escola Base, Bar Bodega e Milly Dowler.

Essa dissociação fica cada vez mais grave porque poucos campos de estudo estão sofrendo uma revolução tão severa, radical e rápida como a comunicação e o aporte que a pesquisa poderia trazer para se aprofundar nas consequências dessas mudanças seria imenso. Contudo, o grosso da produção  continua destinado ao meio acadêmico, onde grande parte dos participantes têm pouca vivência de como é a insanidade de uma redação, e nesta última, a disposição para se renovar profissionalmente é esmagada pela urgência urgentíssima de se produzir a próxima notícia sobre um reality show. Se os médicos parassem de se informar sobre produção científica, a sensação seria de um absurdo inaceitável. No jornalismo, isso raramente é visto como um problema cujo preço é pago sistematicamente pela sociedade.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.