SOPA, a versão de verdade de “O Império Contra-Ataca”

O Brasil passou à margem da discussão em torno da SOPA, acrônimo que dá nome a uma legislação neofascista americana, idealizada pela decadente indústria de Hollywood. Além da discussão fundamental para a sociedade acerca do reality show da Rede Globo, contribuiu para a pouca exposição do assunto o fato de que quem presta atenção ao caso uma minoria tão ínfima da população que mal conseguiria eleger um síndico de prédio. Mas a SOPA é a versão reality de “O Império Contra-Ataca”, da saga Guerra nas Estrelas.

Antes de mais nada, sim, a SOPA é fascista. Caso você não entenda exatamente o que a lei propõe, veja o vídeo feito pela Fight for the Future e tire suas conclusões. Além de ameaçar a arquitetura da informação sobre a qual a Internet está baseada, a lei daria poderes de censura e fechamento de empresas que, segundo seus idealizadores (que não tem só republicanos, mas também democratas, numa clara demonstração de que partidos não fazem diferença), “promoveriam a pirataria na Internet. Um ex-senador que virou lobista chegou a defender que os EUA adotassem as mesmas políticas de censura da China

Como era de se esperar, dezenas de sindicatos apoiaram o projeto. Esses sindicatos argumentam que a Internet e a pirataria está diminuindo a quantidade de empregos disponíveis, o que é, como a maioria dos argumentos a favor da lei, uma mentira. Deixando de lado a questão de que as estruturas sindicais de hoje são um zero à esquerda na defesa dos interesses da sociedade  e atendem somente aos interesses de seus “donos” (sim, porque renovação no poder em um sindicato é tão impensável quanto um Congresso sem corrupção), existe uma parceria incestuosa dessas organizações com os lobistas por trás do projeto, a decadente e reacionária Hollywood. Um post de Matt Stampeck no MediaLabs explica bem por que os sindicatos jamais deveriam apoiar a legislação.

A SOPA é apenas mais uma tentativa de Hollywood de frear a própria decadência. Tendo se esquecido há muitos e muitos anos de tentar reter talento e fomentar uma indústria criativa, Hollywood é hoje uma máquina burocrática que vive para sustentar classes que pouco têm a ver com a criação de entretenimento e arte. Desde o começo dos anos 80, o ciclo de grande criatividade de Hollywood, do cinema de autor (explicado sensacionalmente no livro de Peter Biskind, Easy Riders, Raging Bulls) veio se apagando até se encontrar no estado risível de hoje, graças à criação dos blockbusters  de Steven Spielberg e George Lucas. Hoje, a categoria que mais ganha dinheiro em Hollywood é a dos advogados, seguida pelos produtores e depois, distribuidores. Atores, diretores, roteiristas ganham dinheiro, mas não são mais o top do orçamento, retirando verbas extras de marketing e publicidade do que de cachês pelos filmes. A migração de talento para a TV, onde as séries ficam cada vez mais complexas, não é coincidência.

Um outro post, feito por um entrepreneur  de tecnologia, resume bem os porquês de Hollywood e sua corte de comensais e vassalos estarem bancando a SOPA (e aqui, literalmente, financiando campanhas de políticos e gastando cerca de US$120 milhões anuais em lobby). Hollywood não sabe inovar e não tem o DNA digital necessário para reintegrar suas operações ao ambiente (até porque isso significaria ter de encerrar uma série de privilégios de rêmoras que permeiam o sistema). Os estúdios são geridos por gerentes de mercado que não compreendem nem a parte artística da coisa (morta e enterrada há tempos) e impedem o desenvolvimento de inovações que possam acabar com suas mamatas. Blank afirma que os grandes estúdios gastam milhões de dólares anualmente pesquisando tecnologia para limitar a pirataria, mas os gestores, ligados a marketing e finanças, minam seus trabalhos. Por fim, Hollywood não dá a mínima para os efeitos colaterais que a SOPA possa ter no resto da sociedade no que tange ao suporte à democracia. Preste atenção na lista de mudanças tecnológicos que Blank lista durante o século XX que geraram uma grita geral e que no fim, não “destruíram” ninguém.

A SOPA é, em última instância, a primeira tentativa formal de indústrias decadentes e fadadas a 1) ou uma reestruturação severa, ou 2) desaparecimento de manter seus ganhos financeiros mesmo que isso signifique impor poderes de censura sobre o resto da sociedade. Há uma série de legislações  já em vigor que dão poderes para os produtores de entretenimento combater a pirataria sem ter de fechar o Google (sim, um video de seu filho cantando uma música do Michael Jackson no YouTube poderia tirar o Google do ar, dependendo da sentença de um juiz). A Internet é repleta de imperfeições mas proporciona uma transparência que nenhum outro ambiente dá (certamente mais do que qualquer outra mídia). Hollywood tem em Rupert Murdoch um aliado de peso que defende a SOPA com unhas e dentes, porque sabe que seu império mesozóico vai perder cada vez mais poder no atual cenário. Antes disso acontecer, ele certamente vai tentar muitos outros golpes de Dick Vigarista. O lado Negro da Força perdeu a vergonha e veio para o centro do ringue. Luke Skywalker, aqui, não é nenhum santo, mas é um mal infinitamente menor.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.