Restabelecer credibilidade é prioridade do jornalismo

Nunca na história desse planeta (para semiparafrasear nosso ex-presidente) estivemos submetidos a tanta informação. Isso agrava um problema antigo, que é o de acreditar em praticamente tudo o que se lê. Uma ideia de um jornalista americano, o Truth Goggles (“óculos da verdade”) é uma iniciativa pioneira (ainda que em estágio embrionário) para um ponto vital na recuperação do papel do jornalismo na sociedade: o restabelecimento de sua credibilidade.

Em um post publicado no Media Labs, Dan Schulz explica a sua ideia. Trata-se de um script que, por uma série de encadeamentos, se dispõe a oferecer ao leitor/internauta, um background sobre a veracidade de uma determinada informação. Exemplo: um prefeito corrupto vem e afirma em entrevista que diminuiu a criminalidade em 20%. Através de checadores de notícias como o NewsTrust e oPolitifact, a ferramenta atestaria o quanto aquilo é ou não verdade.

Lendo o post de Schulz em seu próprio blog, ele mesmo admite que a ferramenta ainda está longe de ser utilizável por uma série de razões operacionais, mas este ponto importa menos do que a consciência que um grupo considerável de jornalistas vem tomando sobre a necessidade de se repensar os meios de coleta e divulgação de informação, bem como da criação de hubs de credibilidade entre eles. Em meio a um público um pouco mais crítico, há uma sensação correta de que a maioria das organizações é tendenciosa na hora de noticiar (e o mais perigoso, quase nunca faz isso abertamente, como por exemplo no caso do jornal americano Boston Globe, que apoiou abertamente um pré-candidato republicano). É quase impossível saber hoje se o que estamos lendo é verdade ou se trata de uma notícia plantada (como aparentemente essa, do interesse do Milan num jogador do Botafogo sem contrato).

Uma questão levantada aqui: mas isso não aconteceu sempre? Não foi sempre difícil descobrir se o que estavam falando é verdade ou não?  Sim, sempre foi. Schulz lembra que em 1938 uma transmissão radiofônica convenceu muita gente de que o mundo estava sendo invadido por alienígenas. Mas o dinamismo da mídia digital fez a fortuna de uma parte grande da imprensa que vive de criar factóides. Hoje, para uma mentira virar verdade é muito mais fácil e ferramentas como a que Schulz se propõe passam a ser fundamentais, ainda que muitos outros pontos sejam necessários. Não se trata de reinventar a roda. O jornalismo continua a ser o que sua essência sempre pediu. Trata-se só da recuperação dessa essência.

 

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.