Cooperativa pode ser alternativa sustentável de jornalismo

O maior dilema do jornalismo em sua entrada no mundo digital é simples de entender: as empresas jornalísticas de porte não conseguem manter suas receitas nos mesmos níveis do impresso quando se trata de faturar em digital. Isso acontece tanto porque elas não sabem lidar com os novos formatos (os maiores “anunciantes” nos espaços publicitários nessas empresas é ocupado por anúncios do próprio meio), quanto pelo fato de que a publicidade digital gera menor receita mesmo (embora também gere um custo infinitamente menor). Com menos dinheiro, as empresas demitem e passam a só dar atenção às editorias que dão mais audiência (ex: infotainment) e a praças com públicos grandes o suficiente para gerar a renda, criando algo que o jornalista Tom Stites chama de “desertos noticiosos”. A criação de alternativas para o modelo moribundo da grande mídia é possível? O próprio Stites acha que sim e sugere o cooperativismo como inspiração.

Para fazer um contexto, Stites é um jornalista à frente de uma ONG jornalística americana, o Banyan Project. Em uma série de artigos publicados no NiemanLab, Stites advoga em favor de um modelo que seja capaz de produzir noticiário local, com custos contidos. O objetivo do projeto é acabar com os tais “desertos”, como Haverhill, uma cidade americana de aproximadamente 70 mil habitantes onde os periódicos locais foram fechando por causa das restrições financeiras. Stites observa corretamente que é um exemplo claro de uma falha de mercado – situação na qual o livre mercado não foi capaz de prover alternativas para as necessidades da sociedade.

Os três artigos valem a pena de ser lidos. A sugestão de Stites é a de que como em outros setores, a cooperativa venha preencher o espaço que o mercado não teve competência de ocupar. Isso não se restringe somente  ao fornecimento dessa informação local que não é mais produzida (quem mora numa cidade do tamanho de Haverville entende o que é não ter um jornal decente que produza informação de qualidade). o mercado também é incompetente para fornecer os empregos com salários decentes para os jornalistas que se disponham a trabalhar nesses mercados menores.

Em linhas gerais, esse modelo funciona contando com o trabalho de jornalistas, editores e gerentes que dividem responsabilidades, deveres, receitas e dívidas entre si. A hierarquia vertical dos jornais desaparece para dar lugar a uma estrutura mais interligada. A produção do conteúdo também passa a ter menos gargalos e conta com focos múltiplos (incluindo crowdsourcing e mídias sociais). Naturalmente, a criação de uma cooperativa dá trabalho, mas iniciativas como isenções fiscais e crowdfunding são ferramentas que podem dar grande impulso à ideia. Mas o maior e exclusivo trunfo que o modelo tem é que ele é facilmente reproduzível e não depende nem de doadores, nem de investidores com grandes quantias de dinheiro nem de uma corrida desesperada por audiência que usualmente comprometem a qualidade do jornalismo.

A criação e manutenção desses meios de comunicação em lugares menores raramente ganha as manchetes, mas a democracia numa sociedade é mantida pelo seu fortalecimento em cidades de todos os portes e jornalismo independente é parte fundamental disso. Diga-se que hoje, mesmo nos grandes centros do Brasil, por exemplo, já não existe (se é que existiu um dia) jornalismo indepenente, com esses meios ligados a grandes grupos que têm interesses particulares e agendas políticas atendendo esses interesses. Pensar em um jornalismo financiado de modo diferente pode sugerir um jornalismo menos espalhafatoso, glamouroso e rico do que o de hoje, mas definitivamente sugere um modelo mais útil à sociedade.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.