O fracasso do jornalismo e os caminhos possíveis para reagir

Um artigo publicado na The New Republic nesta terça fala de um assunto que está na raiz do fracasso do jornalismo de hoje em desempenhar a função que deveria. É raro que um artigo vá tão direto ao ponto com tanta precisão porque é mais difícil que tão poucas pessoas falem o óbvio. Alec McGillis, ex-jornalista do Washington Post, com toda razão, aponta o dedo para jornais e jornalistas por conta do abandono de uma função fundamental, a checagem de fatos. É um dos pilares da função que ficou esquecido e precisa ser revisto.

Um dos pontos abordados por McGillis é que o jornalista tem tanto medo de ser visto como parcial que prefere não ir atrás do que realmente aconteceu. Uma prática considerada saudável no jornalismo de hoje (e principal licença poética de um grande jornal brasileiro, por exemplo), é o de ouvir o outro lado e “deixar o leitor decidir”. McGillis argumenta que o pavor insano de não ser visto como imparcial, levou o jornalismo a uma posição defensiva, onde o ideal é livrar os repórteres da acusação de mau jornalismo e ainda deixar a atividade com um status de ciência – isso sem dizer que o “deixar o leitor decidir” é, segundo McGillis, muito mais cômodo. Contudo, isso leva o jornalismo a uma condição básica: fugir da obrigação de dizer ao leitor o que está realmente acontecendo. O resultado é o jornalismo anódino de opiniões em cima do muro que se acusadas de parcialidade, podem facilmente ser defendidas.

McGillis critica a utilização de departamentos nos jornais ou instituições externas como o FactCheck e o PolitiFact para checagem de fatos (claro que a situação no Brasil é ainda pior, porque não há instituições apolíticas fazendo esse tipo de serviço em grande escala). Ele afirma, por fim, o óbvio: os jornalistas tem que trabalhar de um modo em que eles mesmos possam checar os fatos até para ganharem uma compreensão maior do assunto todo.

Aí é o momento quando o choque de realidade entra em ação. Com jornais cada vez mais quebrados por conta de seu apego ao modelo negocial da mídia tradicional e com redações cada vez menores obrigadas a fazer das tripas coração, como é possível liberar o jornalista para empregar tempo checando fatos? (Há problemas igualmente sérios, como o despreparo atroz dos jornalistas recém-formados (e de muitos formados há muitas primaveras), mas a natureza do problema é outra).

Há um cenário indiscutível que inclui algumas condições: 1) os jornais e empresas jornalísticas têm um modelo de negócio que ruma para a hecatombe; 2) o jornalismo e um modo geral cumpre cada vez menos a sua função por conta de restrições causadas pela situação financeira disfuncional das empresas; 3) os jornalistas de um modo geral têm cada vez mais medo de dizer ao leitor o que ele precisa saber porque o leitor é um cliente  e se um cliente sempre tem razão, imagine numa indústria em crise; 4) a checagem de fatos virou chupapress ou copypaste de algum outro lugar; checagem de fatos de verdade consome tempo e dinheiro, recursos carentes no atual modelo.

Este espaço afirma insistentemente que a entrada das tecnologias digitais não significa o fim do jornalismo, mas exige dele uma reformulação sistêmica onde o modelo de negócios pré-digital vai virar história, por bem ou por mal. Como trata-se de uma ruptura inevitável, a saída mais inteligente no momento é procurar alternativas. Sites como o FactCheck são fantásticos, mas imaginar que entidades mantidas por algum tipo de filantropia possam ser a resposta é acreditar na rena do nariz vermelho. Elas podem ser grandes hubs dedicados à atividade, mas precisam ser auxiliados por alicerces que não dependam de mecenato.

Uma série de tarefas ligadas às necessidades do jornalismo que precisam desesperadamente de integração com o crowdsource. Mesmo que hoje ainda não haja ferramentas especializadas para responder a cada uma dessas necessidades, contar com o endosso estatístico de grandes quantidades de pessoas (mesmo que não-jornalistas) parece uma das possibilidades mais viáveis, não só para as grandes corporações mas também para as pequenas organizações e os indivíduos interessados em fazer jornalismo como deve ser feito.

Há a possibilidade de não se fazer nada. Essa vai levar, como disse um amigo que admiro profundamente, a u ma época de caos e trevas no jornalismo, porque os modelos atuais estão fadados ao desaparecimento. O caos não chegará de repente. Na verdade, ele está cada vez mais dando as caras, com a produção de um jornalismo tosco, covarde, defensivo e que tem um fim em si mesmo, sem nenhuma obrigação com a sociedade. O jornalismo chegou na situação de crise de hoje por conta da dependência que criou de seus financiadores (leia-se, anunciantes). É hora dos proprietários de companhias jornalísticas mais astutos abraçarem a revolução antes que ela passe por cima deles.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.