A decisão de um juiz do Oregon de condenar uma blogueira a pagar uma indenização de US$2.5 milhões reacende uma discussão sobre o que é ou não jornalismo. A blogueira noticiou que uma corretora de investimentos, a Obsidian, usava informações falsas e enganava seus investidores. O juiz decidiu que ela revelasse a fonte de sua notícia. Ela negou e ele a condenou, dizendo que ela não é jornalista, uma vez que não está ligada a nenhum meio conhecido. O episódio é fundamental e a decisão é ridícula e nociva. O jornalismo não pertence aos jornalistas profissionais.

O assunto rendeu muita discussão em torno do assunto, mas eu fico com a opinião do sensacional Dan Gillmor, do Knight Centre for Digital Media. Numa coluna no Guardian, ele finalizou o assunto argumentando vários pontos, como que o jornalismo pode ser praticado pro qualquer um, apesar de que,  a maioria esmagadora das pessoas jamais será jornalista (profissional ou não). Gillmor acerta a mão em cheio no ponto, mas também lembra que a prática de “não se revelar a fonte” tornou-se prática comum na indústria (nota minha, na parte profissional dela) criando uma licença para se mentir ou chutar sem ter de fazer força. Quem não se lembrar de nada assim, favor consultar notíciários de negócios e de transações de futebol.

Há, na questão um ponto fundamental em discussão que é a possibilidade de se impedir que qualquer um diga o que quiser. O jornalismo profissional virou uma busca tão desesperada por audiência que os jornalistas, há muito tempo, se esqueceram de guias básicos como distância das fontes, isenção, apuração de fatos e outros pontos. “jornalistas” com “j” minúsculo infestam o cenário, com dezenas de vagabundos posando de jornalistas sérios para em seguida baterem longos papos amistosos com  os personagens de suas matérias. Essa escória jornalística se apoia na lei que deveria ter livrado Crystal Cox da condenação, infecta a prática e abre margem para juízes conservadores darem sentenças que o status quo gostaria de manter.

Gostaria. Mas não vai. Essa é uma batalha perdida para a mídia tradicional, mesmo com seu apoio de ícones institucionais. O juiz do Oregon (um hispânico, colônia que tem bolsões acintosamente conservadores nos EUA), tomou uma decisão baseado numa premissa que só interessa aos meios de comunicação estabelecidos e que, em sua grande maioria, não fazem jornalismo há tempos, tendo se rendido à escatologia e sensacionalismo porque precisam faturar para sustentar uma estrutura dinossáurica incompatível com a nova ordem da mídia. Hoje, exceção feita a alguns centros de excelência (como, por exemplo, The Economist, a BBC, The Guardian, Private Eye, PBS, Pro Publica, e muitos outros), se faz muito mais jornalismo em blogs e sites agregadores de opinião do que nos grandes meios, que têm grandes contratos que travam seu jornalismo.

Não se trata de uma absolvição de Cox. Ela pode perfeitamente ser culpada e ter mesmo feito parte de uma campanha para minar a credibilidade da Obsidian (ainda que, se alguém tivesse falado isso da Lehman Brothers em 2005, digamos, talvez o mundo não tivesse se enterrado numa crise insolúvel da dívida) e se for esse o caso, punida. Contudo, a apuração de sua culpa jamais poderia ter vindo do fato de ela não ser jornalista. Se não por mil outras razões, porque os meios de comunicação tradicionais estão falhando na sua obrigação com a sociedade há muito tempo e não merecem esse crédito. O bom jornalismo não é propriedade dos grandes meios de comunicação. Na verdade, o que o gigantismo deles faz exatamente é condenar a prática do bom jornalismo.

O espírito do jornalismo continua extremamente vivo, mas fora dos meios que por razões que este blog já abordou mil vezes, estão abraçados com a própria falência. E aos jornalistas que assentem com a cabeça, achando que é certo condenar uma não-profissional por jornalismo, um lamento. Vocês estão do lado errado da história e brigando com a realidade em troca dos velhos favores que fizeram com que a classe gerasse esse jornalismo bog standards que hoje burocratiza a primeira página dos jornais.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Mídias Sociais e User Generated Content no Yahoo. Também mantém o blog 90 Minutos.