“…to be successful online, a magazine can’t just take what it has in print and move it to the electronic realm. There isn’t enough depth or interactivity in print content to overcome the drawbacks of the online medium”.

Essa é a opinião de Bill Gates, guru da Microsoft, que uma imensa parte dos geradores de conteúdo digital ainda não seguem. Detalhe: o excerto data de 1996, publicado num artigo em que Gates afirmava que o conteúdo seria o verdadeiro rei do meio digital. 15 anos depois, os grandes geradores de conteúdo choramingam pedindo ajuda porque não conseguem fazer com que suas operações saiam do vermelho. E o conteúdo? Continua a reinar?

Façamos uma pequena digressão: lendo a transcrição do artigo histórico que deu origem à expressão content is king no meio digital, é possível ver que Bill Gates não estava falando de mídia pura e simples, como texto, fotos ou filmes. Ele incluía na sua cesta de conteúdo também, por exemplo, códigos de software. Boa parte do que Gates apregoou há 15 anos se revelou acertado (ainda que os barões da mídia insistam em desafiar a realidade). Um possível escorregão da análise de Gates estava na capacidade de empresas específicas ganharem muito dinheiro produzindo  conteúdo tradicional, seguindo a lógica de produção de mídia no século XX, onde meia dúzia de megacorporações tinham rios de dinheiro vindo de seus monopólios. A produção de texto, áudio e vídeo ganhou milhões de novos concorrentes e tudo mudou.

Como a escassez praticamente acabou, não adianta mais aquela emissora ficar cuspindo aquele conteúdo tosco e contando com a sua falta de opção (uma situação sensacionalmente abordada no episódio 15 Million Merits da série britânica Black Mirror). Para o produtor de conteúdo, acabou a mamata. A concorrência passou a ser global e todos os nichos de todos os estilos têm uma infinita capacidade de produção por valores contidos e às vezes, nulos. Daí veio a sensação de que o conteúdo deixou de importar e que qualquer porcaria vale. É um erro. O bom conteúdo continua sendo preferido em relação ao conteúdo tosco (supondo que a avaliação do que é bom conteúdo seja exclusiva e individual, ou seja, o que é bom para mim é bom e ponto). Agora, numa competição entre conteúdo ameboide em uma plataforma sensacional e um conteúdo celestial numa plataforma medíocre, o conteúdo ameboide ganha a la Barcelona.

Além da importância da qualidade do conteúdo, as companhias de mídia precisam agora focar em como vendê-lo. Não, não estou somente falando das estratégias de marketing que vão fascinar os usuários e em muitos casos induzi-los a comprar conteúdo ruim, mas de um refinamento do produto em si. O que atende melhor a necessidade ou desejo daquele público específico? Como posicionar melhor o seu conteúdo nos motores de busca para que quem quer o que você tem ache seu produto facilmente? Como melhorar o algoritmo do sistema de sugestões de uma ferramenta de entrega digital de vídeo? Como interpretar o contexto de uma imagem num sistema de busca? E mesmo indo além da busca: como desenvolver ferramentas que permitam acesso ao conteúdo com mais facilidade e rapidez e – determinante – por um preço barato o suficiente que quebre as pernas da pirataria? Esta discussão de pricing já tinha pistas de soluções no artigo de Gates há 15 anos (abrir mão de preços altos para ganhar na quantidade), mas ainda assim há gente querendo vender conteúdo por US$20 que pode ser baixado em milhares de lugares de graça.

A vaticinação da desimportância do conteúdo é  tratada como verdade absoluta (como nesse artigo de Jeff Jarvis de 2005) e já há algum tempo, mas acredito que ainda que reconhecendo que a qualidade do conteúdo, por si só, não determina seu sucesso (e menos ainda deter os direitos milionários disso ou daquilo), a produção e curadoria de conteúdo ainda têm importância na equação.

Para quem deseja vender conteúdo dos outros, não há época melhor, porque jamais houve tantas possibilidades de oferta. A sensação de que o conteúdo deixou de ser importante é porque, com uma máquina azeitada, consegue-se vender mesmo que seja lixo (basta ver os campeões da audiência da TV, na sua maioria esmagadora, lixo puro). Mas venderia-se mais ainda se o conteúdo fosse bom segundo a preferência daquele público. As companhias de mídia que pretendem sobreviver terão de limar o gigantismo e agir como intermediárias na produção feita por outros players. Quem quiser ter uma postura tentacular provavelmente vai dançar ou ter de empregar muita energia para manter os níveis de lucro parecidos com os de outros tempos

Uma coisa parece certa: como disse Jeff Jarvis no seu post de 2005, nem que seu conteúdo seja estupendo, você só conseguirá fazer muito dinheiro com ele se tiver uma “quantidade insana de sorte”. O trajeto da máquina de dinheiro agora inclui várias partes (onde cada uma delas pode render receitas agregadas):  qualidade de conteúdo (relembrando que a discussão sobre o que é qualidade é outra coisa), aperfeiçoamento de sistemas de sugestão e entrega (que na realidade são apenas outra forma de conteúdo), preço adequado e integração das mídias sociais (que cada vez mais serão os grandes arenas onde as ofertas são ou não endossadas pelo mercado). O conteúdo ainda é rei, mas ele não reina mais sozinho. Como na evolução de um sistema político, o rei perdeu parte dos anéis para manter os dedos.

Sobre o autor

Cassiano Gobbet Cassiano Gobbet é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo e mestre em jornalismo digital pela Bournemouth University. Atualmente é Gerente de Mídias Sociais e User Generated Content no Yahoo. Também mantém o blog 90 Minutos.