Revolução no jornalismo tem de ser entendida e não enquadrada

Quedas crescentes de tiragem e faturamento, aumento exponencial da concorrência (em especial, por parte das micropublicações), endividamento também exponencial por conta das custosas operações de old media vem despertando nos últimos tempos a preocupação das grandes companhias de comunicação e notícias em relação ao próprio negócio. A  revolução tecnológica, argumentam, criou um sem-número de novas fontes de notícias que – ainda segundo o raciocínio – não são confiáveis o suficiente para exercer o papel de “vigilante” da sociedade. A “preocupação” dos gigantes da mídia com a sociedade fez com que figuras proeminentes da mídia começassem a sugerir que subsídios governamentais para salvaguardar o jornalismo de qualidade. O estado confusionário da gestão das grandes empresas de mídia é compreensível, mas nem por isso, menos míope ou oportunista.

A ideia de se subsidiar o processo jornalístico é tão obscena quanto qualquer outra solicitação de subsídio. É mais ou menos como um político sugerir que sua gestão deva ser auditada pela empresa de auditoria que pertence a ele mesmo. Com raríssimas exceções como a BBC (Grã-Bretanha), PBS (EUA) e CBC (Canadá), empresas públicas de comunicação oferecem um produto de baixa qualidade, com estruturas que são grandes cabides de empregos (este, um problema até em companhias excelentes, como a BBC), manipuladas politicamente e com pouquíssima transparência sobre o próprio funcionamento. Logo, a repentina preocupação com o jornalismo de qualidade por parte dos titãs da mídia não passa de um oportunismo de quem só concorda com as regras enquanto elas são favoráveis.

DAVOS/SWITZERLAND, 27JAN07 - Sir Martin Sorrel...
Martin Sorrell, CEO da WPP

A grande mídia ainda insiste em tentar evitar o que já aconteceu – a alteração da cadeia de poder na informação por conta da tecnologia. O que de fato aconteceu com o tsunami  proporcionado pelas mudanças tecnológicas é que 1) as notícias deixaram de ser um produto acabado para se tornar um processo sem fim, 2) os custos para se tornar um player de mídia com alcance global despencaram, fazendo com que com relativamente pouco dinheiro seja possível competir com megacorporações e 3) encerrou-se a capacidade das agências e megacorporações de sempre reportarem primeiro os acontecimentos (Twitter e outros serviços instantâneos transformaram virtualmente qualquer um em uma fonte de notícias). Essas mudanças já aconteceram e são irreversíveis. Negá-las é entrar na frente do trem para tentar pará-lo.

A sensação de caos iminente que estremece as fundações das grandes corporações de mídia se deve à percepção (precisa) de que elas estão fadadas ao declínio dentro do novo ambiente da comunicação digital. Assim como aconteceu com os dinossauros, o ambiente sofreu uma mudança estrutural e os grandes organismos  perderam competitividade porque não têm a agilidade e capacidade de mutação dos pequenos. Grandes corporações têm na sua planilha de custos uma série de gastos aos quais elas podiam se dar ao luxo de ter, tal era a sua dominância, mas agora, eles tornaram-se um peso que, na corrida da sobrevivência, podem custar suas existências (e vão, em boa parte dos casos). Imponentes escritórios nas áreas nobres das cidades, conselhos editoriais que não agregam nada à produtividade editorial e a própria cultura das empresas (que em 9 de 10 casos tenta submeter suas divisões digitais aos interesses das publicações de old media em vez de promover uma reformulação indispensável) são algumas das razões que impedem a reinvenção dessas companhias. E elas vão pagar por isso.

O jornalismo não precisa nem pode ter subsídios de qualquer natureza porque isso vai contra a sua essência. Não se pode receber favores de quem se está investigando – dizer isso é o óbvio ululante, mas a discussão pede. Não há risco de o jornalismo perecer caso companhias como a WPP, News Corporation, Rede Globo ou qualquer outra do gênero viessem a deixar de existir.  O que, sim, deve acontecer é que em vez da geração e distribuição de informação partir de meia dúzia de grupos megapoderosos, serão milhares os “fornecedores” de informação. É curioso notar aqui que o que argumentos como os de Martin Sorrell defende, o de pedir subsídios para empresas “capazes” de fazer jornalismo de qualidade é diametralmente oposto à livre competição de mercado que 100% dessas megacompanhias sempre defenderam.

Há, inegavelmente, um movimento no qual o jornalismo está sendo subjugado pela propaganda (mais do que sempre foi). Esse é mesmo um problema , grave e crescente, mas é só mais um sintoma da inadequação atual da indústria. Com seus custos exorbitantes, as operações jornalísticas dependem cada vez mais de seus anunciantes e ficam cada vez mais nas mãos de seus departamentos comerciais. Para se mudar isso, é preciso repensar o modelo por uma alternativa que custe menos, seja mais flexível e que tenha vários pontos de apoio em vez de unicamente a receita de anúncios.

As megacorporações precisam se decidir se aceitam abrir mão dos anéis ou se querem perder os dedos. Só as companhias que começarem a cortar na própria carne imediatamente, refazendo suas estruturas de ponta a ponta, eliminando privilégios de antigos gatekeepers, coordenando esforços para beneficiar o processo de informação e não certos setores da empresa (como por exemplo, uma grande emissora de TV brasileira que estrangula o desenvolvimento de seu departamento de novas mídias para manter a onipotência do departamento televisivo, seu carro-chefe), aceitando a participação efetiva de conteúdo gerado por usuários (bem como o parecer deles no processo) e mais uma série de medidas.. Pedir subsídios é a saída mais fácil, mais injusta e menos lógica, mas quando regimes entram em decadência, raramente eles não incorrem nesses tipos de erro. Quem se arriscar a sair da zona de conforto e compreender as mudanças vai lucrar muito com elas. Quem não o fizer, terá problemas sérios.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.