O jornalismo continua o mesmo, mas diferente

Um dos debates mais frequentes entre jornalistas, envolvendo mídias sociais, é ditado pelo receio. Jornalistas não gostam de social media. Uma vez acostumados a serem os gatekeepers  da informação,  eles são costumeiramente avessos a ter de interagir. “Leitor deveria poder só escrever para elogiar”, disse-me uma vez um colega muto mais experiente. Conforme as mídias sociais ganham espaço freneticamente, o ressentimento aumenta. E a discussão ganha ares de confronto. Elas vão matar o jornalismo?

Esse post na verdade é uma discussão que me veio à mente por causa de um post do blog The Wall, que tem

Carl Bernstein at the 2007 Texas Book Festival...
Carl Bernstein, o oráculo do jornalismo

exatamente o título de “A mídia social está matando o jornalismo?”. Ele foi motivado por um memorando de uma diretora de redação de um jornal na região de Detroit, onde orientava seus repórteres a ir mais fundo no engajamento com as mídias sociais. Um colunista de um outro jornal da região respondeu com um artigo, Como matar o Jornalismo, onde ele desanca a sugestão da diretora, atribuindo ao engajamento social – que de fato consome muito tempo – a impossibilidade de se fazer “bom jornalismo”. O colunista ilustra perguntando como Carl Bernstein e Bob Woodward teriam tido tempo para revelar Watergate se tivessem de ficar interagindo em redes sociais ou tuitando.

A discussão toda tem pouco a ver como matar ou não o jornalismo, desde que você entenda jornalismo como sendo a tarefa de reportar a informação e incitar o debate. O problema é geracional e criado por um shift tecnológico que basicamente alijou toda uma geração de jornalistas acostumadas a uma série de litanias e rituais jornalísticos que vão desde os protocolos diários como reunião de pauta, por exemplo, até a hierarquia de dentro da redação e o relacionamento com a audiência.

Se a compreensão de jornalismo é o jornalismo como ele era feito por Bernstein e Woodward, sim, a mídia social vai matar o jornalismo, mas essa leitura é tendenciosa. Tratar o modo de reportar de 1960 como sendo o ideal absoluto é um sebastianismo tolo. Woodward e Bernstein, caso fossem dois iniciantes hoje, usariam ferramentas distintas, mas provavelmente teriam os mesmos méritos. O ofício de buscar a notícia e reportá-la com idoneidade segue exatamente o mesmo. As ferramentas, condições, ritmo e andamento desse ofício é que mudaram radicalmente. Muito radicalmente (se é que é possível classificar algo assim).

O atrito geracional está no receio dos jornalistas quatrocentões em perder privilégios. Nos jornais e revistas brasileiros, por exemplo, há uma série de profissionais caríssimos que não produzem o suficiente (nem com qualidade suficiente) para justificar seus salários, e eles não querem nem têm condições (em sua maioria) a se adequar a novidades como data journalism, feeds, ciclos de notícias em tempo real, novos métodos de reportagem, ferramentas de áudio e vídeo embutidas nos seus smartphones, pipes, chats e outros anglicismos.

Obviamente que muitos dos jornalistas hipervalorizados ainda têm muito a dar. A questão é que talvez isso não valha mais tanto assim – pelo menos em termos financeiros. Por exemplo, alguns dos colunistas mais importantes dos jornais brasileiros recebem salários equivalentes a vinte ou trinta membros de suas redações para escrever uma coluna semanal, além de fazer parte das discussões da board  de diretores. Por mais que eles tenham o texto bom (e, cá entre nós, a maioria esmagadora nem tem o texto tão bom assim), esses empregos só são mantidos por conta das relações políticas que eles têm. É a venda de grife . E grife, especialmente em mercados menores (como o de jornais no Brasil ou dos jornais da área de Detroit), é um luxo que os jornais não têm mais como bancar.  Isso vale também para o envio de diretores de emissora para sorteios de copa do mundo na Suíca, pagamento de suítes cinco estrelas para colunistas que vão cobrir posses em Nova York ou para empresas que abrem estúdios na Europa para agraciar diretores e apresentadores. Ou seja, no fim das contas, as empresas raramente pensam em cortar os luxos dos agraciados com benesses políticas. A conta sempre fechou porque o jornal (e a revista) detinha um poder que não tem mais. Agora, ou se adequa ou opera no vermelho.

Como sempre, o extermínio de privilégios estabelecidos é combatido com fúria. Creio que os jornalistas mais tradicionais e respeitados genuinamente acreditem que o jornalismo está morrendo, mas isso é muito mais um ato de negação de que eles precisam sair de sua zona de conforto do que qualquer outra coisa. A revolução tecnológica fez despencar uma série de custos e transformou muitas organizações em players efetivos do mercado de informação. O jornalismo, na sua essência, contudo, continua o mesmo.  É como quando David Bowie perguntou a John Lennon o que ele achava do glam rock  que ele, Bowie fazia. “It’s just rock’n’roll, man. The only diference is the makeup”.

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Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.