A pulverização da mídia de massa

“Todo mundo poderá ter uma estação de TV própria”, anunciou um executivo da Cisco em um evento nos EUA, segundo informa o NYT (uma das marcas mais legais do jornalismo que corre o risco de desaparecer no espaço de uma geração, caso não entenda a mensagem). John Chambers, CEO da gigante de TI afirmou que a companhia aposta pesado na opção do vídeo como ferramenta universal de comunicação. Só nos EUA, a previsão dele é de um milhão de estações diferentes (isso, um milhão). A mensagem de Marshall McLuhan vai passar de dimensão.

Apesar de não ser tão conhecida do grande público como as marcas mais comerciais como Apple, Amazon e Microsoft, a Cisco é uma gigante da indústria que tem tudo para ser o Cidadão Kane da neorevolução digital. Produtora de hardware de redes, a empresa está numa posição muito confortável como maior produtor de um setor que deve ser um dos grandes hubs da comunicação, o vídeo.

Os grandes titãs da mídia moderna se formaram em cima de impérios baseados em concessões, na sua maioria. Certamente há grandes grupos ligados a jornais, mas os maiores em absoluto são os que vivem de licenças do governo para transmitir pela TV. ABC, NBC, Televisa, Globo são alguns deles. Na Europa, onde a política de concessões sempre foi mais severa, viu menos proliferação, mas depois da liberalização thacheriana e berlusconiana, viu novos impérios como Sky, Mediaset e Canal+.

O que a Cisco anuncia é que esses grupos não terão mais nenhuma vantagem competitiva que não seja a de ter muito dinheiro (o que, claramente, ainda é uma vantagem e tanto). A pulverização da produção de conteúdo fará com que o preço da commodity seja definido pelo usuário. Com infinita oferta, a escassez passa a ser na demanda. Se você tiver infinitas opções, para você se dispor a gastar algo em alguma coisa ela precisa ser MUITO boa.

Na verdade, a mera escolha do usuário, apesar de não ser tratada assim, já é hoje uma forma de pagamento. Um discurso comum entre grupos de mídia é o de que não é possível monetizar determinados produtos como, por exemplo, notícias. A verdade é que, sim, é possível, desde que a estrutura seja enxuta, o modelo de negócio não inclua stakeholders dispensáveis (como digamos, figurões numa redação, departamentos de marketing caríssimos que fazem suas vendas em mídias de massa). A lógica da Era Industrial, na qual o produto se imbuía de valor pela sua escassez está se encaminhando para a extinção quando se trata de mídia. Na nova lógica, a atenção do consumidor passa a ser a nova moeda. As empresas têm agora é se desconstruir e desenvolver modos de converter isso em recursos para poder competir com essa oferta infinita.

Essa oferta infinita (ou quase) vai ocupar o espaço de modo muito peculiar e indecifrável. Por exemplo, se você tiver filhos que joguem no campeonato do bairro, vai acompanhar o que o microcanal de TV desse campeonato vai passar;  Sua banda pode ter uma emissora onde ela dê shows em streaming e ainda venda produtos; prestadores de serviços podem manter canais de conversação com seus clientes. Nenhum deles vai passar a ter audiências gigantes, mas as audiências maciças de emissoras com dezenas de pontos, essas vão sofrer.

Quando se fala que todo mundo terá uma emissora de TV, fica mais fácil imaginar se você não pensar no estereótipo de TV atual. não existirão estúdios imensos, links ao vivo com qualidade HD e aberturas ultratecnológicas. Esses features só foram possíveis porque as emissoras de TV dão tanto lucro que se incrementaram. Mas nada disso era necessário. As microemissoras que a Cisco menciona são parte de uma revolução sem precedentes que certamente tentará ser evitada como gente pedindo o controle da Internet e corporações tentando criar lei para poder acabar com a neutralidade da rede através de traffic shaping. Com ou sem tentativas de golpe, essa revolução não tem mais como não ocorrer.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.