Procurando novos modelos de negócios para o jornalismo

Tendo a achar que não é provável que um dia, um Homem de Neanderthal tenha subido a um abismo na Pré-História e observado um vale cheio de dinossauros onipotentes e pensado que algum tempo depois, eles teriam desaparecido sem deixar vestígio. Hoje, podemos experimentar essa sensação. Observamos gigantes que vão sucumbir ao próprio tamanho e não têm, na sua maioria, capacidade de reverter o quadro. O jornalismo não acabou nem vai acabar, mas o atual modelo está condenado.

Na semana passada, na Digital Age, evento em São Paulo que reuniu diversos palestrantes que tinham o que falar sobre o novo ambiente. É visivelmente um Velho Oeste, com espaço para todos que quiserem se estabelecer (e que tenham capital para suportar até atingir o break-even), em todos os aspectos. Desde a produção de conteúdo até as políticas de escolha de meios para publicação de anúncios, tudo precisa de um lifting. Não há nenhum setor da comunicação que esteja adequado ao novo momento – nem a audiência.

O crowdsource na produção de conteúdo é uma alteração definitiva. Não preste atenção a nenhum tipo de rótulo que tente defini-lo como desvalorização do trabalho do jornalista, queda de qualidade, exploração de mão-de-obra, etc. Crowdsource não é nada além de uma revolução no ambiente de trabalho que tira o jornalismo da Era Industrial e o coloca de fato numa nova Era (não sei exatamente se pós-industrial é o melhor nome.) Redações como as que os jornais se orgulham em ter estão fadadas a desaparecer, como os dinossauros que nosso Neanderthal deve ter visto da beira do abismo. Isso não significa perda de qualidade, isso não significa piores salários (já falei num post anterior sobre os pisos salariais no Brasil, esfolados à exaustão pela grande mídia), isso não significa menor atribuição. É simplesmente uma divisão de poder e responsabilidade.

Mas não é só o crowdsource que representa um passo avante no ambiente digital. Além dos leitores e produtores de conteúdo, também os anunciantes estão prestes a ter um novo cenário onde escapam das garras dos gatekeepers, que, hoje, são as agências. Uma palestra interessante de Fernando Taralli na Digital Age apontou como o meio publicitário ainda não se rendeu à eficiência das mídias digitais. A fala de Taralli condiz com um artigo da NMA que diz que o gasto com mídias sociais ainda não reflete a adoção das mesmas pelos usuários. Algumas agências já se deram conta de que não podem mais manipular os clientes aos meios que pagam o melhor BV. Eu mesmo já escutei de um importante publicitário que há grande resistência à publicidade digital pelos seus pare (como aponta o artigo da NMA) porque o digital é 100% mensurável. Até hoje, o anunciante dependia da lisura da agência para ter seu dinheiro empregado da maneira mais eficiente. Com as medições digitais, a agência não terá mais opção a não ser colocar o dinheiro do anunciante no meio de comunicação mais eficiente. E as melhores agências já estão espertas para isso.

Mas ainda há dúvida sobre quem vai produzir o conteúdo se a notícia virou uma commodity de valor baixo ou zero. Antes de esclarecer isso, uma observação – a notícia não virou uma commodity de valor zero: ela não é mais vendável em termos diretos, simplesmente. As pessoas estão dispostas a pagar pela notícia, mas não com dinheiro. A audiência delas transformou-se em capital e cabe às empresas monetizar isso – uma coisa que grandes empresas têm como fazer, desde que não tenham uma turba de fanfarrões em seus departamentos de marketing e vendas.

Retornando da digressão, quem fará o conteúdo. Tom Forenski, num artigo na ZDNet, questiona qual será o futuro da produção de conteúdo. Hoje, muitos dos sites e blogs importantes, simplesmente “cozinham” (gíria jornalística que significa ler e reescrever um artigo) material feito por outros e não dão crédito. Essa não-atribuição pune o “cozinheiro” no longo prazo, mas a curadoria responsável de material é saudável nesse novo ambiente. Produzir conteúdo vai voltar a ter um valor inerente, uma vez que a geração de conteúdo “industrial” ficará inviável ou pelo menos, deficitária. Não chegaremos numa situação na qual todo mundo só “cozinhará” material e a audiência vai procurar quem pode oferecer material genuíno.

O jornalismo e a produção de conteúdo estão trocando a pele. De um lado, a indústria tradicional, que ainda fatura muito dinheiro, quer manter o status quo; do outro, a tecnologia colocou a indústria em xeque e aponta para o fim de um modelo que é herança da Revolução Industrial. Pode levar mais ou menos tempo, mas o xeque-mate já está dado. Não há na história um exemplo no qual a evolução tecnológica tenha sido derrotada.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.