Newsstand pode tirar a revista da “Green Mile”

Green Mile é o título de um filme baseado num livro de Stephen King. É o nome do corredor pelo qual os condenados à morte passavam antes da execução. A inaptidão da indústria editorial pelo mundo tinha colocado as revistas nesse corredor. Incapacidade de gestão, criação de um novo modelo e adaptação ao meio digital tinham feito esse gênero uma espécie em risco, por mais que ele seja compatível com o digital. Para sorte das revistas e do mercado editorial, a Apple lançou o Newsstand. E as vendas bombaram.

O Newsstand, para quem não sabe, é uma banca de jornal digital que faz parte do novo lote de sistemas operacionais da Apple para iPhone, iPad e Mac. Na semana de lançamento do aplicativo,  o app do New York Times, passou de 27 mil downloads por semana para 189 mil (sim, seis vezes mais). E esse é o número no iPad que é o menos impressionante. No iPhone, aos downloads passaram de 21 mil por semana para 1.8 milhão na semana do lançamento. Quase 90 vezes, segundo informação de Jeff Sonderman no Poynter. O trend já era detectável. Além da Apple, o Yahoo! também tem um projeto similar e deve abrir os olhos dos editores de revistas que não conseguem se livrar do hábito de imprimir seu conteúdo. Sem Steve Jobs, esses editores estariam condenados aos desemprego.

O Newsstand, Livestand e afins são game changers. A indústria editorial impressa está fadada a desaparecer ou, na melhor das hipóteses, a se tornar um nicho de colecionadores anacrônicos (algo como hoje são os colecionadores de vinil, jipes ou Ladas, por exemplo). Com esses agregadores de vendas digitais, os editores recebem os últimos chamados para embarcarem na publicação digital. Os que não o fizerem, terão um futuro sensacional, editando jornais de sindicato, flyers de baladas indie e lambe-lambe.

Há anos que a indústria editorial se recusava a ver os sinais de que não atendia mais o leitor. Por exemplo: ainda hoje, nas redações, a discussão sobre a capa da revista ainda é tratada como se fosse decuplicar as vendas, mas na banca de jornal, 80% das revistas ficam com a capa escondida. A própria banca saiu da lista de costumes do leitor. Em mercados competitivos como São Paulo, ir à banca de jornal ficou tão raro quanto ir ao açougue fora do supermercado. As vendas caíam e os editores discutiam as capas.

Como nem tudo é justo, a indústria editorial acabou recebendo uma ajuda vigorosa da tecnologia, mesmo sem merecer (porque uma indústria que não entende a necessidade do consumidor merece sumir). As revistas agora têm o chamado definitivo para entender que as necessidades mudaram. O Newsstand bombou porque facilita a vida do usuário. Ele não vai se arrastar pela rua clamando pelo seu exemplar da revista X porque a capa é sensacional. Ou ela vem até ele ou que se dane. Como diz o ditado, se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai até a montanha. Até aqui, os editores estavam esperando a montanha vir até eles. Os que recusarem a ver o óbvio que esperem a montanha se mexer.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.