Veja o BigBrother e não saiba que está sendo assaltado

É muito comum se ouvir a crítica de que os meios de comunicação cometem algum tipo de excesso (digamos, exibem muita violência ou nudez, ou programas de QI nulo). Contudo, raramente alguém se dá conta da própria participação no processo, quando escolhe sua programação com um dos elemento citados no cardápio. Como fazer jornalismo investigativo de qualidade tendo que atender o mundo real da necessidade de audiência?

O editor de um jornalpequeno mas com forte background de jornalismo investigativo americano, o Voice of San Diego, deu uma entrevista ao Instituto Poynter onde ele fala que o processo de avaliação das matérias investigativas têm sido refeitas, levando-se em conta as necessidades de audiência impostas por quem para a conta nos jornais, o departamento comercial.

O fato é que o velho discurso dos jornalistas sobre a necessidade de se manter como os zeladores da sociedade caiu por terra. Não há mais (ou quase não há) meios de comunicação dispostos a encaixar as perdas de audiência apostando em coberturas relevantes sobre política, finanças ou corrupção enquanto o público segue frenético o que acontece em programas de deadbrain content e subgêneros. Se mesmo jornalistas importantes que trabalham em grandes emissoras vêm a público dizer que gostam de lixos televisivos de grande faturamento porque não querem desagradar os patrões, como imaginar que a conscientização vai partir de uma população cada vez menos obrigada a pensar?

Sites americanos como o ProPublica se dedicam somente a esse jornalismo “utilitário” ou ingleses não filantrópicos como o Guardian e a BBC ou mistos como a PBS não sabem como fazer para financiar a função pela qual começaram a existir em algum momento. Como observou o jornalista Clay Shirky, num artigo que já comentei aqui no blog, a sociedade precisa começar a pensar como financiar esse tipo de atividade. Esse é um momento no qual o Estado precisa intervir para estimular a sociedade nesse sentido – mas não em gastar dinheiro para fazer nenhuma autarquia cheia de desocupados para fingir que prestam um serviço público. Vale lembrar: cada vez que você assiste o Big Brother ou entra numa matéria tosca na Internet, deixando de lado coisas que precisaria saber, está jogando uma pá de cal no seu futuro. E não adianta achar que não – uma hora você vai pagar por isso.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.