O HuffPost e o ditado do lobo sem pelo

“O lobo perde o pelo, mas não perde o vício”. Afinal, é a sua natureza. O mau hábito de carregas os maus hábitos pelo resto da existência bateu às portas até mesmo do modernoso e falado Huggington Post, cujo modelo de negócios é a vedete do jornalismo recente. Numa polêmica aparentemente desnecessária, o HuffPost agora vestiu a roupa de patrão sovina.

A política do jornal de Arianna Huffington quanto à produção de material é amplamente baseada em crowdsourcing  e no uso de material de colaboradores que nem sempre recebem algo por isso. Além do cerne editorial de meia dúzia de pessoas, o HP tem uma rede de cerca de 9 mil bloggers que, na verdadem garantem a funcionalidade do projeto. A publicação já tem processos por conta da exploração do trabalho de alguns deles sem remuneração. A nova polêmica se refere a uma política similar que o Post está fazendo com os designers protestem, em função de um concurso que, segundo os designers, é para que o jornal consiga um logo para o Twitter sem ter que gastar nada. A matéria da AdWeek é bem completa e explica a polêmica. Se você quiser, visite também o verbete do Wikipedia sobre o Huffington e saiba um pouco mais sobre o histórico problemático das contribuições.

É difícil entender por que uma organização capitalizada, multimilionária e com um modelo de negócios válido como o Huffington Post precisa lançar mão de um tipo de política de recrutamento que tem a cara do século XIX. “Projetos” que tentam maquiar de citizen journalism a exploração pura e  simples de trabalho gratuito “em troca de visibilidade” são a cara do jornalismo tradicional que está se arrastando pelo mundo com suas sedes nababescas, mesas de carvalho, diretorias imensas e nenhum futuro.

A bolada de mais de US$300 milhões que o HP faturou da AOL para mudar de casa e viabilizou sua entrada no Reino Unido (que desafortunadamente ocorreu no mesmo dia em que estourou o escândalo do phone hacking e por isso não teve mais destaque) indica que a publicação poderia pensar com menos avareza. Projetos feitos em cima de crowdsourcing dependem de pagamentos menores do que a um profissional numa redação, que são compensados com facilidades que o produtor de conteúdo tem de outros lados (como liberdade de horário, flexibilidade de trabalho, etc). Mas têm de ser pagos. Nenhum projeto de longo prazo sério pode ser montado em cima da exploração de trabalho mal-remunerado.

Nesse momento, o leitor pode argumentar que há séculos, as maiores empresas da história do capitalismo vivem de explorar o trabalho mal-remunerado (escravo, não – essa é uma prerrogativa “moderna”, porque sem salário não há consumo e sem consumo não há capitalismo). A questão aqui é que na nova indústria da informação, o dono do capital tem vantagens, mas não é mais o dono absoluto do poder. Iniciativas como as do HP são extremamente salutares, mas não podem se inebriar com o sucesso e imaginar que seus colaboradores possam viver da glória de colaborarem com a oitava maravilha do mundo. Da mesma maneira como o Huffington virou um hit, pode desaparecer e dar lugar a outro. Arianna Huffington precisa perder o vício de uma indústria decadente ou perderá muito mais do que somente o pelo.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.