“Content Farms” podem ser a adequação do jornalismo ao meio digital

Houve um dia em que o jornalismo tinha hubs determinados pelos meios de produção. Se você fosse um jornal (e depois, uma rádio, TV, etc), contratava uma série de pessoas para estabelecer o que as pessoas iam saber. Se não fosse, não fazia. Agora, virtualmente qualquer pessoa pode expor o conteúdo que quiser. Uma das primeiras consequências da implosão do antigo modelo é a crescente necessidade da produção de conteúdo. A incapacidade de encaixar um modelo de negócio viável para as redações criou as condições para o surgimento das “content farms” (“fazendas de conteúdo”). Não, elas não acabam com o jornalista nem com o jornalismo – mas também não são necessariamente sinônimos para os dois.

Você não sabe o que é uma “content farm“? Então dê uma olhada na Wikipedia e veja. São grandes sites que agregam o conteúdo produzido por colaboradores de uma comunidade e pagam por eles conforme as suas necessidades. O Associated Content, Seed.com e o Demand Media são alguns deles. Eles são alvo de muita crítica por parte de empresas de notícias e jornalistas, porque estariam “roubando” a função desses, sucateando o valor do produto e permitindo que qualquer um possa se passar por jornalista.

As críticas são infantis. O trabalho do jornalista já foi sucateado há muito tempo, com os valores pagos a jornalistas, em redações digitais, sempre em queda – especialmente no Brasil, onde a desobrigatoriedade do diploma, a imbecilidade de ministros em suas avaliações e uma quantidade industrial de faculdades inadequadas encheram o mercado de mão de obra sem qualidade. A geração de conteúdo em “content farms” é um modo de se adequar a necessidade crescente por conteúdo com os novos modelos de negócios baseados na realidade da indústria digital. Comprar conteúdo específico para as necessidades da empresa desonera o processo porque atende uma demanda concreta e por um preço menor, mas que permite ao criador do conteúdo acumular várias solicitações.

Nem todas as “content farms” são, no entanto, substitutos perfeitos para o jornalismo de outras épocas. Em muitos dos casos, as demandas das “farms” para seus produtores são pura e simplesmente criadas por motores de busca. Ou seja: são “populares”. Em termos de eficiência, como observa um articulista do MediaShift, são perfeitas no critério de atender às demandas do público (dão o que o povo quer saber). Contudo, o articulista não coloca na conta que jornalismo não é só produzir o que tem demanda. O teórico e jornalista Clay Shirky versa sobre o assunto, dizendo que boa parte das notícias têm de ser subsidiadas de alguma forma.

Gerenciadas da maneira correta, contudo, as “farms” podem ser, sim, um eficiente meio de se conseguir produzir a quantidade de conteúdo necessária dentro da viabilidade financeira exigida pelo modelo digital. Hoje, muitos “jornalistas”, apesar de diplomados, não têm condição de desempenhar a profissão adequadamente, enquanto profissionais de diversas áreas têm conhecimento e destreza suficientes para versar sobre determinados assuntos. O mercado passa a ser mais livre, no sentido de filtrar quem é mais capaz de fazer a função. O jornalista profissional, formado e experiente, esse continuará a ter espaço, porque é o material premium que ele faz que as empresas de notícias terão de ter para poder fidelizar leitores. Qualquer pessoa alfabetizada pode escrever, mas o trabalho do jornalista vai muito além disso.

A conclusão final sobre as “content farms” ainda está por vir. Hoje, elas ainda têm um produto irregular e que está formando a sua comunidade de produtores. As empresas também ainda não sabem direito se querem simplesmente preencher páginas ou se querem dar às “farms” uma função mais nobre no sentido de guiar e fazer curadoria do melhor conteúdo possível – além, é claro, de atender às exigências de SEO dos motores de busca, que virtualmente são a força motriz da publicidade (e receitas) na Internet. A ferramenta é muito promissora, mas não é nem boa, nem ruim, como qualquer avanço tecnológico. Tudo depende do uso que se fará dela.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.