Ataque às mídias sociais é sinônimo de autoritarismo, negação e burrice

Há um ditado italiano que diz que “La madre degli imbecili é sempre incinta” (“A mãe dos imbecis está sempre grávida”). Poucas vezes a sabedoria popular foi tão precisa. Nos recentes acontecimentos na Inglaterra, onde o povo saiu às ruas e promoveu saques e destruição após a morte de um jovem, o governo conservador veio com a brilhante ideia de bloquear as redes sociais porque elas foram a ferramenta para organizar a baderna. O ditado precisa de uma adapração. A mãe dos imbecis às vezes é mother in law da primeira dama.

Primeiro, falemos um pouco de David Cameron. O premiê Tory é provavelmente o político mais medíocre da Inglaterra desde John Major (curiosamente, outro conservador). Cameron é o representante mais perfeito da aristocracia mais segregacionista, oligárquica e nociva da melhor tradição inglesa do imperialismo. Formado em Eton, o berço da aristocracia britânica, Cameron ficou imortalizado ainda em sua juventude por uma foto no club que fazia parte em Oxford, o Bullingdon Club, uma associação de filhotes de aristocratas centenária na cidade, onde os seletos membros eram famosos por destruir restaurantes e agredir pessoas. Daí saiu o líder britânico que promoveu o maior corte de benefícios sociais na Grã-Bretanha desde Margareth Thatcher (novamente, curiosamente, outra conservadora). Auxiliado por esse background, Cameron discursou da House of Commons nesta quinta-feira, sugerindo que a Inglaterra bloqueasse as mídias sociais porque elas “ajudaram a organizar a ação criminosa dos últimos dias”. Uma fala condizente com um ditador de uma republiqueta qualquer, mas não de uma democracia consolidada.

A falta de vergonha de Cameron em sua sugestão é também condizente com seu currículo de ter sido eleito com a ajuda de Rupert Murdoch e a guarida criminosa da News Corporation. Também  o é em relação ao corte de quase 50% do governo no crédito educacional, com o fim do British Council of Cinema, uma das entidades estatais mais sensacionais no apoio ao cinema no mundo, com o estrangulamento da BBC, certamente a melhor TV pública do mundo e mais uma centena de coisas. Cameron propõe fechar as mídias sociais porque é um ditador em potencial e a dinastia de Bullingdon em 10th Downing Street seria o que ele mais gostaria de fazer, se possível, reintegrando as colônias e recolocando a Irlanda do Norte de joelhos.

As mídias sociais são tão “culpadas” pelos distúrbios em Londres quanto o sistema ferroviário o era pelos incidentes dos hooligans nos anos 70. É verdade que grande parte dos saques no país aconteceram com ação de criminosos, mas a insatisfação e desespero que motivou a pouplação em tantos lugares a externar sua revolta começa no fato de em nenhum lugar do mundo haver uma ostentação tão agressiva quanto a londrina. O jovem britânico sabe que não terá a menos chance de ter 1% do que vê os milionários, jogadores de futebol e celebridades desfilarem nos tablóides de Rupert Murdoch. Além disso, agora, tem ainda menos chance de ter educação, saúde, cultura e justiça.

Cameron não propôs o fechamento de jornais e emissoras de TV porque sabe que não tem força para isso, mas certamente ele gostaria. Os acontecimentos em Londres não são somente uma ação criminosa, assim como não o foram os eventos em Paris anos atrás. O que as redes sociais fizeram foi colocar as pessoas em contato e elas se deram conta que sua miséria não era exclusiva, assim como sua revolta e insatisfação.A mesma coisa aconteceu em ditaduras como Líbia, Síria, Egito e afins. Cabe perguntar se David Cameron vai condenar ações repressivas desses governos daqui em diante ou vai adotar o modus operandi dos colegas em sua gestão.

Cassiano Gobbet

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