Wired comprometeu fonte do Wikileaks. E agora?

Em 2010, não houve nenhum acontecimento global que fosse tão inarrestável como o vórtice de informações abertas pelo Wikileaks, o whistleblower do australiano Julian Assange que revelou aos olhos do mundo como a diplomacia mundial é basicamente uma rede de mentiras e traições. Bradley Manning, o grande heroi da história – como o próprio Assange afirma – contudo, ainda jaz na cadeia e há razões para achar que ele jamais sairá de lá, apesar de só ter 24 anos. A revelação de que a respeitadíssima Wired teria tido um papel na condenação moral de Manning, levanta uma série de questões no episódio.

Curto resumo: Manning era um oficial de informação do Exército e passou informações para o Wikileaks. Contatado pelo hacker e jornalista wannabe Adrian Lamo, Manning confessou ser a fonte de informações do WL. Lamo denunciou Manning que foi preso, mas jurou que Manning não pedira proteção de fonte jornalística e que só agiu assim porque “vidas estavam em risco” numa matéria da Wired. A revista até publicou os trechos dos chats entre Manning e Lamo que “provariam” que Lamo dizia a verdade. Anteontem, a Wired finalmente publicou os chats entre Lamo e Manning na íntegra e o estarrecedor resultado  é que a revista manipulou o excerto previamente publicado, retirando trechos nos quais ficava claro que Lamo mentia e que ele conseguiu a confissão de Manning sim prometendo proteção às fontes.  Adrian Lamo tinha como tese de defesa os argumentos da Wired e a revista encampou sua tese.  Se ela se enganou, foi ludibriada ou simplesmente tomou partido é que passa a ser a questão agora.

O que fazer numa situação na qual se tem certeza de que uma pessoa jaz na cadeia por causa de, na melhor das hipóteses, um erro jornalístico? Bradley Manning dificilmente vai sair da cadeia num futuro breve. Nos EUA, ele é visto como um inimigo e traidor por grande parte da inculta população do país. Se a Wired é indiscutivelmente séria, tendo sido levada de importante revista de design a centro da discussão de mídia digital no mundo, é pertinente imaginar que sua responsabilidade tenha sido ampliada pela sua magnitude.

Enquanto escrevo esse post, a revista de mídia digital mais famosa do mundo, cujo editor inventou a teoria da cauda longa, entrou para os tópicos do Twitter e assim, algo muito mais simples e importante vêm a baila. Como é fazer jornalismo? Qual o compromisso que se tem com a verdade? Quantas vezes se pode errar e como limitar os danos de um erro? Isso é possível de fazer? A revista estava envolvida com o governo para tentar pegar Julian Assange?

A sensação de que Adrian Lamo era um desequilibrado psicológico, mitômano e attention seeker era notória, mas graças à intervenção da Wired, o pseudo-hacker e jornalista conseguiu a absolvição momentânea (agora, está foragido com medo de ser morto). Contudo, Manning ainda está na cadeia e os neocons o querem morto como exemplo por traição à pátria. A Wired parece ter deixado sua fome de status engolir a revista de design e tecnologia de outrora. Passou a tratar de economia, mídia digital e, no Manninggate, política. Falhou em sua tarefa primordial: fazer jornalismo (tarefa na qual era muito boa, diga-se).

Basta pedir desculpas? Se for comprovada a sua participação no imbróglio, não. “Ayin tachat ayin, ou a Lei de Talião do “olho por olho”? Também não. De qualquer modo, Manning continuará na cadeia. E a Wired não. É (ou  pelo menos parece ser) uma das situações tristes nas quais não há justiça possível.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.