Apesar de Ninguém & Cia, a mídia social informa – mas poderia informar mais

Numa fábula arquetípica para a cultura ocidental, a cigarra descrita por Esopo investia todas as suas energias em aproveitar o máximo a vida enquanto a formiga se preparava para dias mais difíceis. A lição moral talvez tenha perdido o sentido num momento em que o sucesso é cada vez mais dissociado da capacidade de trabalho e ligado à heranças de conexões sociais. A socialização informativa à qual a Economist se refere na edição da semana passada, de qualquer modo, parece distante da realidade das gerações mais jovens, pois não leva em conta que as novas gerações de estudantes não vêem as mídias sociais como ferramenta de informação e sim de socialização. A conexão ainda é um brinquedo de status. Mesmo informativa à força (as pessoas escutam o que está acontecendo pelos comentários dos outros), a rede ainda tem um longo potencial informacional a explorar.

Não se trata de uma crítica geracional pura e simples. Em toda a história, estar bem-informado foi um diferencial, mas a transformação do jornalismo em entretenimento e a hipervalorização da cultura fútil de subcelebridades redesenhou uma hierarquia em que é mais importante saber que aquele fantástico ator, Ninguém da Silva, estava na praia com uma desgovernada qualquer (no caso, cujo locus social era o de” namorada de ninguém”) do que prestar atenção à aprovação de orçamentos secretos no governo por parte de um ministro visivelmente safado.

Um artigo muito interessante de um professor de jornalismo americano levantou a bola do assunto no que diz respeito à relevância que estar bem informado tem na vida e prioridades de estudantes mais jovens. As novas gerações têm centenas de milhares de vezes mais condições de se manter bem-informados do que tinham seus pais, grosso modo. Contudo, saber da vida privada de Ninguém tem mais importância, uma vez que o foco da mídia de entretenimento (sim, porque acompanhar Ninguém pelas ruas não é jornalismo) está em cima disso, rende mais dinheiro, gera ícones e realimenta toda a indústria de entretenimento (que às vezes gosta de fingir que é jornalística, porque isso confere um ar menos fútil á sua produção) de novo.

Feita a digressão de lamentação pela nova ordem de importância nas prioridades dos estudantes, há uma reflexão positiva a se fazer que é a de que, por mais fútil, irrelevante e insípido que seja o cardápio informativo de um adolescente conectado, ele ainda assim estará sujeito a receber informações mesmo contra a sua vontade. No artigo do Mediashift, o professor comenta que ficou sabendo da morte de Osama bin Laden no Facebook e foi se informar na CNN. Sintomático. Outros riscos aparecem: como garantir a veracidade do que se escutou? Quem controla os hoaxes que podem surgir? A pauta informativa que uma pessoa segue pode ser somente aquela das escolhas dos amigos? A maturação do novo modelo será responsável por responder estas questões.

Claro que a premissa não vale para profissionais de jornalismo e comunicação. O papel dos gateways de informação, que filtram a informação relevante e não relevante para alimentar outros profissionais e o público em geral, obriga que a vida de Ninguém seja deixada de lado (talvez os jornalistas especializados em gossip possam continuar alegremente seguindo Ninguém sob pretexto profissional, mas esse é um drama que diz respeito somente a ele, o setorista de Ninguém). A conexão e capacidade de deixar a informação buscar o seu público que têm as mídias sociais são vitais no trabalho do jornalista que presta atenção em que está fazendo e não se deixa levar por aquilo que a maré está indicando – até porque o papel do opinion maker é o de ditar esse caminho. Senão, acaba virando ninguém – com letra ainda mais minúscula.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.