O preço das notícias e a necessidade da sociedade de se informar

Um post do jornalista Ron Greenslade me chamou a atenção ontem no Guardian. Na verdade, o título de Greenslade ia ser exatamente o mesmo deste post e a minha licença poética para a cópia (além de citar a fonte) é que ele também falava sobre um post de um outro jornalista, Clay Shirky, um colunista que sempre faz textos excelentes. Neste, Shirky expôs um ponto de vista que sugere – com razão – que a sociedade precisa que o fazer jornalístico (eu odeio essa expressão, mas ela encaixa) não pode ser uma mera commodity.

O ponto exposto nos posts dos dois jornalistas é quanto à função objetiva do noticiário e como ele não pode ser tratado simplesmente como uma mercadoria, que vai para este ou aquele caminho conforme a demanda sofre um processo de imbecilização, onde notas sobre subartistas fúteis têm mais audiência do que decisões governamentais que têm impacto direto na vida de todo mundo.

Shirky colocou a dicotomia “jornalismo como filantropia versus jornalismo como capitalismo” para estabelecer o problema que, basicamente, é uma questão que os jornais do mundo todo têm diariamente entre as prioridades comerciais e editoriais.”As notícias têm de ser subsidiadas porque aqueles na sociedade que buscam dizer a verdade [ok, este é um conceito polêmico, mas vamos adotar que trata-se de um purismo] não podem depender do quanto o seu trabalho seria pago no mercado”. Fato. Jornalistas que cismem em cutucar muitos e muitos inimigos tendem muito mais a viver em subempregos (em democracias) e caixões (países com regimes autoritários) do que brilhando em escritórios sensacionais de jornais importantes. Os mercados bancam uma quantidade muito menor de jornalismo independente, direto e objetivo do que as democracias precisam para se garantir como tal. O festim diabólico de Wapping, onde fica a sede da NewsCorp, é um exemplo de como o mercado faz com que o jornal busque somente o lucro e passe como um trator desgovernado por cima dos interesses da sociedade.

Shirky continua: “A maioria das pessoas não liga para as notícias, mas precisamos pensar é naquelas que ligam, mesmo um pouco, mesmo só de vez em quando e por isso, é um serviço que tem de ser subsidiado”. Shirky aborda aqui um ponto do qual o filósofo grego Castoriadis falava: a sociedade só não rui completamente porque uma pequena parcela dela sente a necessidade de fazer as coisas da maneira certa, seguir as leis e defender o que é justo. Essas pessoas às quais Castoriadis se referia são as mesmas mencionadas por Shirky, as que se preocupam com o que está acontecendo.

Esse pensamento tem muito a ver com uma transição pela qual o jornalismo está passando hoje e eu comentei num outro post. O modelo jornalístico que atravessou o século XX fazendo milionários como Murdoch, as oligárquicas famílias “jornalísticas” brasileiras, Ted Turner e etc,  não está falido, mas está fadado à extinção com a nova mobilização da sociedade onde a transparência e participação dos órgãos de imprensa na sociedade passou a ser uma condição do jogo. “Se as receitas do jornalismo capitalista estão diminuindo e os recursos do jornalismo filantrópico não vão cobrir a lacuna, precisamos de modos muito mais baratos de reunir, entender e disseminar as notícias, tanto medidas na quantidade de informação produzida quando na quantidade de leitores atendidos”, observa Shirky. É por isso que novas redes de produção de conteúdo, que não estejam vinculadas tão somente ao mercado , devem aparecer e assumir um papel importante no cenário da informação. Notícias relevantes precisam ter um custo contido ou ser de graça porque elas precisam ser disseminadas. “As poucas pessoas que se importam precisam poder ter como compartilhar essas notícias e em tempos de crise, soar o alarme para o resto de nós”, finaliza Shirky.

O escândalo da NewsCorp certamente é um divisor de águas na produção de informação em mercados democráticos (o Brasil não é, porque a legislação aqui é cartelizante, garante reservas de mercado e está irregularmente distribuída). Mesmo em mercados imaturos como o brasileiro, seu impacto chegará, porque com a crescente paranoia de compartilhamento (uma paranoia que traz riscos à privacidade mas irá derrubar uma série de reservatórios de privilégios), a era das grandes corporações que se guiam esquizofrenicamente em função somente de seus interesses, está perto do fim (assim como o documentário “A Corporação” mostra). Os dinossauros estão vendo o gelo chegar. Mas estão em negação.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.