Onde a mídia tradicional falhou, falha e (provavelmente) continuará a falhar

Um post publicado pelo blog Playing the Devil’s Advocate, em meio ao tsunami que Rupert Murdoch está enfrentando, o autor (Advocatus Diaboli) levanta as duas causas que ele vê como as centrais na queda irremediável da imprensa tradicional (qualidade de conteúdo e modelo de negócios). São muito pertinentes (discuto ambos abaixo), mas eu agregaria mais um: o afastamento do core business do jornalismo, que é (pelo menos, originariamente, era), a de informar as pessoas.

O PTA inicia a discussão levantando a queixa das grandes corporações de mídia e das suas divisões de entretenimento como sendo a impossibilidade de competir com material gratuito que está sendo oferecido na Web. Essa é a desculpa de 10 em 10 executivos de grandes corporações para os crackdowns em cima de sites que oferecem conteúdo gratuito (ou “Pirata”, dependendo de como você queira interpretar) e também para as demissões, reduções de salários, terceirizações e afins. A Record, por exemplo, na semana passada, anunciou que vai conter despesas, o que seria muito pertinente se ela não tivesse investido quase R$40 milhões para contratar dois ícones do infotainment, Roberto Justus e José Luiz Datena.

O argumento da “impossibilidade” de concorrer com o material gratuito é, obviamente, uma falácia, causada ou por má-fé no debate, ou por incapacidade de gerência estratégica (ou os dois, claro). O ponto, segundo o artigo, é que ninguém mais vai pagar para ter um conteúdo de baixíssima qualidade (normalmente vilipendiado por agências ruins, redigido por estagiários mal-formados em faculdades falimentares) tendo alternativas gratuitas. Esse cenário, o de poder vender mortadela como se fosse caviar, morreu (para sorte da audiência). Contudo, não consta que publicações como a Economist venham a ter de catar lixo na rua para vender o que fazem e isso acontece porque a Economist vende um material que só pode ser feito por profissionais gabaritados – e que fique claro, não é preciso que sejam jornalistas.

Um segundo ponto abordado pelo Diaboli é a resistência das corporações a aceitar a inadequação do novo cenário com seus modelos de negócios. As práticas comerciais e de captação de anunciantes de um jornal são muito diferentes das que as novas mídias precisam para ser eficientes. Além disso, as grandes corporações jornalísticas carregam uma estrutura pesada demais com uma série de diretorias, gerências, divisões e afins que foram sendo construídas no decorrer da consolidação dos jornais e emissoras como grandes empresas. Graças aos avanços tecnológicos, as redações de publicações de mídias digitais podem ser muito menores, mais ágeis e PRECISAM estar livres de liames políticos que comumente mantém profissionais medíocres (mas bem relacionados) no centro das operações. Como condição de sobrevivência, as mídias digitais precisam mudar da noite para o dia, quantas vezes isso for necessário e exigir que seus funcionários se adaptem. Essa agilidade jamais terá espaço numa empresa aculturada com o estilo quatrocentão das velhas redações.

Eu ainda vejo um terceiro ponto focal na derrocada das empresas tradicionais de mídia. Um dia, surgiu o primeiro jornal. Seu intuito era informar as pessoas as coisas que aconteciam. No decorrer do tempo, os jornais perceberam que podiam ganhar dinheiro se abrissem seu espaço para os anunciantes e foram ficando dependentes deles. O negócio então não era mais informar as pessoas, mas ganhar dinheiro. Se outrora foi romantismo pensar num jornalismo que se tivesse limites para as concessões ao departamento comercial, agora não é. Numa palestra do Otávio Frias, me lembro de tê-lo visto dizer que uma empresa jornalística era exatamente igual a qualquer outra, mas não é. O jornal serve para informar e não para ganhar dinheiro. Se der para fazer as duas coisas, muito bem, mas na prática (e como Rupert Murdoch vem deixando ridiculamente claro), não é assim.

O que está acontecendo agora é que os jornais dependem dessas fontes de receitas mastodônticas para sustentar sua estrutura mastodôntica, que, há muito tempo, deixou de ter a informação do público como preceito básico (afinal, as receitas dos meios de comunicação vêm dos anunciantes e não dos leitores). E agora, o público não só se deu conta disso como também sabe que pode se informar melhor em mais fontes e, como qualquer player em qualquer mercado, busca otimizar o valor do seu dinheiro e aumentar o número de fornecedores possíveis. Em linhas gerais, a mass media vai colapsar pelas mesmas razões que fizeram delas onipotentes no século XX – o dinheiro maciço da publicidade.

Naturalmente que essa é uma visão global e não geral. Há jornais que se preocupam mais em informar e outros menos. Os anunciantes continuarão a ser fundamentais para as empresas jornalísticas e o mercado continuará a ter pressões positivas e negativas. O que está mudando é a possibilidade do público de reprovar uma grande empresa. Como observou Jeff Jarvis , a transparência é a nova objetividade em jornalismo. está havendo uma mudança de paradigma. Há publicações que têm um produto de valor que não é possível de ser encontrado de graça e há amplo espaço para as empresas talharem seus caminhos em meio ao Velho Oeste do horizonte digital. Isso implica em uma mudança de mentalidade, tanto sob o ponto de vista do negócio quanto do fazer jornalístico. Essa é a batalha de morte que a maioria das mídias quatrocentonas vai perder, mais cedo ou mais tarde.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.