O News of The World e a rediscussão do jornalismo

O Brasil dá uma cobertura míope para o escândalo do News of the World, jornal do império de Rupert Murdoch que circulará pela última vez no domingo. Não se trata somente de um grande jornal fechando (e grande, aqui, quer dizer “grande” mesmo, com cerca de 3 milhões de exemplares por domingo). Trata-se de uma discussão radical do papel da imprensa, da responsabilidade dos jornalistas pelos atos dos seus colegas e pelo papel da sociedade na exigência do respeito à lei.

Num resumo rápido. Numa matéria sensacional, o The Guardian provou que o NOTW mantinha um investigador particular na redação para invadir a privacidade das pessoas  e esse investigador não e importava em corromper policiais, comprar documentos pessoais, hackear telefones e contas de cartão de crédito. O caso que fez a coisa explodir foi o de Milly Dowler, menina de 13 anos que tinha desaparecido em 2002 e que teve seu celular hackeado pelos repórteres do NOTW. Na ânsia por notícias, eles esvaziaram a caixa postal de Milly, levando a família a acreditar que ela estava viva por mais seis meses, quando na realidade já tinha sido morta.

Naturalmente, como é de se esperar num país cuja sociedade se respeita, o mundo veio abaixo e todos os anunciantes retiraram suas contas do NOTW, fazendo a News International anunciar o fechamento do jornal. Todo mundo reagiu de alguma forma, mas há discussões que só aparecerão em algumas semanas, quando os ânimos esfriarem. Agora é a hora de pessoas irem para a cadeia, pagarem indenizações e tudo mais. A discussão ética vem depois. Se vier.

No Twitter, a grande maioria dos jornalista ingleses está demonstrando sua solidariedade aos jornalistas do NOTW que perderam o emprego. Os jornalistas demitidos lamentam, dizendo que o jornal estava sendo punido por erros cometidos em outra gestão e pelos seus patrões. Mas aí surge uma questão interessante: esses jornalistas estão mesmo isentos de culpa?

Como jornalista, é fácil dizer: todo mundo sabe se no lugar em que você trabalha há maracutaias, se sua empresa é idônea e se há alguém de rabo preso. Por causa de uma mentira chamada consciência de classe ou uma subversão da palavra “comprometimento”, os profissionais se calam em relação às coisas que circulam acima de suas cabeças. Ou simplesmente por medo mesmo. Contudo, esses mesmos profissionais, vão alegremente, no fim de cada mês, receber seus salários, ainda que a empresa na qual eles trabalhem esteja agindo de maneiras que vão do inadequado ao criminoso.

Assim, por que razão deve-se absolver um jornalista – ainda que honesto e competente – que trabalha numa empresa corrupta e às vezes criminosa, quando ele sabe dessa postura por parte da empresa (ainda que só admita isso em conversas particulares)? Jornalistas que trabalham nessas empresas normalmente o fazem por causa de salários melhores e maior projeção profissional. Isso não é uma forma de cumplicidade?

No livro “Os Carrascos Voluntários de Hitler”, o sociólogo  Daniel Jonah Goldhagen argumenta que Hitler não poderia ter feito o regime de terror que fez se o alemão comum não tivesse compactuado silenciosamente com o que o Nacional-Socialismo fazia. Nesse pacto, o alemão comum aceitava que o Estado fizesses barbaridades desde que ele obtivesse vantagens. Na opinião de Goldhagen, o cidadão alemão tinha suas mãos sujas de sangue. E da mesma forma, jornalistas, ainda que honestos e competentes, trabalhando para organizações que se julgam acima da lei, quando preferem fechar os olhos às verdades inconvenientes, estão endossando a política dessa empresa. Esse é exatamente o caso do NOTW.

A discussão do Dowlergate vai muito além: como conter uma empresa jornalística que tem tanto poder que faz o Estado temê-la? Como preservar a liberdade de imprensa (pilar absoluto da construção da democracia) sem permitir que a busca por audiência não crie um quarto poder de fato? Como exigir que as instituições se coloquem em defesa da sociedade quando uma dessas empresas estão violentando a mesma? Como criar mecanismos para que políticos e empresas de comunicação superpoderosas não criem laços incestuosos?

A Inglaterra está entrando numa discussão que só pode ser feita numa sociedade 1) que se respeita; 2) que tenha um sistema político que não garanta imunidades a seus representantes; 3) que tenha um judiciário independente; 4) que tenha uma indústria de mídia forte e com concorrência e 5) com real determinação de se depurar. Hoje, bom jornalismo é interpretado por audiência – qualquer imbecil explorando a miséria alheia ganha ares de jornalista. Até na Inglaterra, considerado o mercado de mídia mais maduro do mundo, é assim. Com o episódio de Milly Dowler, os britânicos têm a oportunidade de mudar isso.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.